domingo, 18 de dezembro de 2011

Diferenças e semelhanças entre os assexuais – Parte 2/2

Na última postagem, falamos sobre artigo do sociólogo Mark Carrigan, do Departamento de Sociologia da Universidade Warwick (Reino Unido) sobre as semelhanças e diferenças encontradas por ele em sua pesquisa com membros de comunidades virtuais de assexuais. Relatamos, então, as principais diferenças; hoje, discorreremos sobre os aspectos comuns compartilhados pela comunidade.
Relembrando, Carrigan fez primeiramente uma análise temática de fóruns, sites e blog dedicados à discussão da assexualidade; em seguida, aplicou um questionário aberto – respondido por 174 pessoas autoidentificadas como assexuais; por último, fez entrevistas aprofundadas com 8 pessoas. Na primeira parte da pesquisa, o estudioso constatou a grande diversidade entre os assexuais. Por exemplo: alguns assexuais estão dispostos a fazer sexo, enquanto outros sentem repulsa pelo ato; alguns desejam uma relação amorosa, outros não têm essa necessidade; a atração romântica de alguns está fundamentada em gênero; para outros, gênero é irrelevante. Carrigan afirma que um dos aspectos mais curiosos da comunidade assexual é a sua capacidade de articulação da diferença individual e, simultaneamente, a solidificação de uma identidade comum.
Nesta parte da pesquisa, o sociólogo explora as semelhanças das experiências dos assexuais entrevistados, tentando compreender a gênese da diversidade já discutida na parte anterior, com ênfase nas trajetórias a caminho da autoidentificação como assexual. Ele diz que, embora os detalhes biográficos específicos variem conforme o entrevistado, cinco aspectos são comuns à maioria dos assexuais em sua trajetória em busca de si:
1) A percepção de existe uma diferença individual em relação aos outros;
2) Autoquestionamento sobre essa diferença;
3) Construção de hipóteses explicativas para a falta de interesse por sexo;
4) Conhecimento da “existência” da assexualidade;
5) Formação de uma identidade assexual na comunidade e fim do autoquestionamento.
Um bom exemplo dessas etapas é a trajetória de uma das jovens entrevistadas na pesquisa. Quando adolescente, não conseguia entender ou acreditar quando suas amigas lhe falavam sobre seus desejos e fantasias em relação a sexo e relacionamentos amorosos, pois isso não ocorria com ela. Mesmo tendo tido aulas de educação sexual na escola, nada em sua própria experiência confirmava o que diziam colegas e professores. Enfim, chegou à conclusão de que era diferente de suas colegas, passando à crença de que havia algo errado com ela. Seu autoquestionamento só chegou ao fim quando conheceu o conceito de assexualidade e, a partir daí, foi possível construir uma identidade assexual juntamente com outros assexuais da comunidade.
Carrigan observa que, em dado momento da vida, o indivíduo assexual tem primeiramente uma percepção de que é diferente de seus amigos. No entanto, não é a simples percepção da diferença que gera o autoquestionamento, afinal, a diferença entre as pessoas pode ter  origens diversas: diferenças de personalidade, valores, crenças, comportamento, interesses, prioridades, tudo isso torna as pessoas diferentes. No entanto, a percepção se torna certeza quando constatam que, ao longo do tempo, suas experiências começam a divergir das vivências de seus amigos. Os amigos não assexuais começam a engajar-se em relacionamentos amorosos e sexuais, e essa é a maior prova de que existe uma diferença significativa entre o eu e o outro. Essa certeza é que gera o autoquestionamento. Além disso, o indivíduo pode também ser cobrado socialmente sobre os motivos de sua indiferença ao sexo e/ou aos relacionamentos. Essa cobrança também colabora para que haja o autoquestionamento.
Durante o processo de autoquestionamento, o indivíduo assexual tenta dar sentido à sua falta de interesse pelo sexo, formulando diferentes hipóteses para sua aparente indiferença, em busca de uma explicação plausível. Uma hipótese possível – por estar tão difundida pela medicina e pelos meios de comunicação – é que exista uma patologia, algum transtorno fisiológico, psicológico ou emocional que esteja impedindo que aflore o interesse pelo sexo. Entre os entrevistados de Carrigan, esta hipótese patológica é considerada no início do processo de autoquestionamento, sendo, na maioria dos casos, rejeitada e substituída posteriormente por hipóteses mais positivas.
Por outro lado, existem aqueles que passam de uma explicação patológica para outra explicação patológica, experimentando grande sofrimento, na certeza de que são doentes ou anormais. É caso de uma das entrevistadas de Carrigan. Às vésperas de seu casamento, a jovem resolveu que tinha que “curar” sua indiferença ao sexo antes da cerimônia. Procurou um terapeuta, discutiu sua infância, suas experiências, em busca de algum acontecimento que explicasse sua falta de interesse pela atividade sexual. Quando essa tentativa fracassou, a jovem buscou um endocrinologista, o qual, após exames clínicos, garantiu que não havia nada de errado com seus hormônios. Mesmo assim, ela implorou que o médico lhe prescrevesse injeções de hormônios. Tomou testosterona por meses, mas o problema não foi resolvido. Em seguida, passou a tomar progesterona, que também não mudou sua situação. A essa altura, ela já tinha se casado e fazia sexo por obrigação, sem nenhuma vontade, era muito infeliz. Nem mesmo um longo período de terapia de casal pôde salvar o casamento. Essa jovem só atingiu a felicidade quando, finalmente, passou a identificar-se -  para si mesma e para o mundo -,  como uma mulher assexual. À medida que ela começou a se aceitar como assexual, todo o sofrimento foi embora e ela conquistou o equilíbrio e a felicidade que tanto almejava.
Um ponto em comum entre os assexuais entrevistados foi a importância da descoberta das comunidades de assexuais na internet como etapa fundamental em seu processo de autoconhecimento. A aquisição de uma identidade comunitária afasta a patologia, a ambiguidade e o isolamento experimentados pelo assexual como indivíduo. A comunidade possibilita a autoaceitação e o compartilhamento de experiências comuns, a formação de amizades e parcerias românticas assexuais.
O artigo de Carrigan ilumina bastante alguns aspectos da assexualidade que ainda não tinham sido explorados por outros pesquisadores. O autor encerra o artigo colocando uma série de outras perguntas que espera poder responder ao longo de sua pesquisa.

TEXTO COMENTADO
Carrigan, Mark. There’s more to life than sex? Difference and commonality within the asexual community. Sexualities 14(4), 2011, p. 462-478

Gostaria de desejar a todos os leitores do Blog Assexualidades um felicíssimo Natal e muitas realizações e sucesso para 2012. Agradeço de coração a todos vocês pela força que têm dado ao blog; esse apoio tem sido fundamental para a continuidade da minha pesquisa. Um abraço muito carinhoso!

sábado, 12 de novembro de 2011

Diferenças e semelhanças entre os assexuais – Parte 1/2

O artigo sobre o qual falaremos hoje foi escrito pelo sociólogo e filósofo  Mark Carrigan, do Departamento de Sociologia da Universidade Warwick, Reino Unido. Carrigan afirma que seu interesse pela assexualidade como tema para pesquisa surgiu quando soube que dois de seus amigos identificavam-se como assexuais. A partir de conversas informais com esses amigos - nas quais o sociólogo aprendeu as “bases” da assexualidade e familiarizou-se com o vocabulário assexual -, decidiu pesquisar essa “nova” orientação sexual. Este artigo apresenta alguns resultados preliminares de sua pesquisa, a qual ainda está em andamento.
As identidades e as experiências vividas por indivíduos que se identificam como assexuais constituem o foco do artigo de Carrigan. O pesquisador esperava, com sua investigação, responder à seguinte pergunta; quais são as diferenças e as semelhanças entre pessoas que se identificam como assexuais? Nesta postagem falaremos sobre as diferenças; na próxima postagem falaremos sobre as semelhanças encontradas na pesquisa de Carrigan.
O sociólogo fez, em primeiro lugar uma análise temática de diversos fóruns, sites e blogs sobre assexualidade; em seguida, fez entrevistas semiestruturadas com pessoas que se autoidentificavam como assexuais e, por último, aplicou um questionário aberto, respondido por membros de comunidades virtuais. Os indivíduos entrevistados e os que responderam o questionário on-line fazem parte principalmente de três comunidades virtuais: AVEN (Asexual Visibility and Education network), A-Positive e Asexuality LiveJournal. Carrigan entrevistou 8 pessoas. O questionário aberto continha 27 perguntas e foi respondido por um total de 174 pessoas, sendo que 130 responderam a todas as perguntas.
A definição de assexualidade mais aceita entre os pesquisados é aquela proposta pela AVEN: “assexual é uma pessoa que não sente atração sexual”. Apesar disso, Carrigan percebe que as experiências dos assexuais nem sempre estão dentro dos limites desta definição. Para o pesquisador, esta definição esconde a heterogeneidade dentro desse grupo, principalmente porque não considera os diferentes motivos para que cada um se identifique como assexual.
Uma das diferenças encontradas por Carrigan entre seus pesquisados assexuais foi sua orientação romântico-afetiva. Em primeiro lugar, existem aqueles que não têm nenhum interesse por relações amorosas, - os chamados arromânticos – e aqueles que têm interesse amoroso – os chamados românticos. Os românticos podem interessar-se por pessoas do mesmo sexo, por pessoas de sexo diferente, por qualquer dos sexos, ou o interesse pode ser independente do sexo/gênero. São denominados, respectivamente, homorromânticos, heterorromânticos, birromânticos e panromânticos. Esse vocabulário também foi encontrado pela socióloga Kristin Scherrer em sua pesquisa de 2008, cujo artigo foi discutido em postagens anteriores.
Outra diferença encontrada pelo pesquisador no interior da comunidade assexual diz respeito ao grau de assexualidade experimentado por cada indivíduo.

- o assexual  não sente atração sexual em nenhuma circunstância.
- o demissexual sente atração sexual somente como consequência da atração romântica, nunca independente desta. Quando mantém uma relação emocional com uma pessoa, a atração sexual pode acontecer, mas somente por aquela pessoa, por nenhuma outra.
- o assexual cinza (Gray-A) se encontra na zona cinza percebida entre a assexualidade e a sexualidade; Carrigan dá como exemplo um entrevistado que diz que algumas vezes sente atração física por determinada pessoa, embora não sinta vontade de fazer sexo com ela. Se o sexo acontecer, é possível que o assexual cinza sinta algum prazer, embora não sinta desejo pela atividade sexual.
- o assexual fluido afirma que sua experiência com a atração sexual é fluida e circunstancial. Carrigan diz que somente um entrevistado em sua pesquisa afirmou ser um assexual fluido.
Essa diferenciação de vocabulário em relação ao grau de assexualidade é descrita no site da AVEN, e também foi constatada por outros pesquisadores. Outro conjunto de palavras do vocabulário assexual que traduz mais diferenças entre os membros dessa comunidade, diz respeito à atitude da pessoa assexual em relação à atividade sexual (numa tradução bem livre das palavras em inglês):
- sexo-positivo: pessoa assexual que considera a atividade sexual natural, saudável e boa para quem gosta. O sexo-positivo não tem nada contra o sexo; só não tem nenhum interesse na prática, mas pode ter interesse intelectual ou cultural sobre o tema.
- sexofóbico: pessoa assexual que têm aversão à prática sexual de um modo geral. Geralmente considera o sexo como algo nojento, nauseante.
- sexo-indiferente (ou neutro): pessoa assexual totalmente indiferente à prática sexual; não acha que sexo é nojento, mas também não deseja fazer.
- antissexo: pessoa (não necessariamente assexual) que pensa que a atividade sexual deveria ser extinta da face da terra, exceto para fins de reprodução. Existe um movimento antissexo em alguns países.
Os assexuais entrevistados por Carrigan têm atitudes bem diferentes em relação ao sexo. Alguns dizem que jamais farão sexo; outros dizem que não têm interesse por sexo, mas fariam para agradar seus parceiros românticos; outros dizem que sentem repulsa pela simples ideia do sexo. Alguns assexuais afirmam que o sexo com seus parceiros românticos não assexuais pode ser fonte de intimidade, mesmo não sendo prazeroso para eles. Outros dizem que a atividade sexual é uma tarefa que se sentem obrigados a fazer.
Para quem é sexofóbico ou antissexo, a ideia do sexo é muito problemática. Aqui também há variedade. Alguns dizem sentir-se desconfortáveis por achar que a atividade sexual não é natural; outros se sentem levemente enojados pelo sexo; por último estão aqueles que pensam que o sexo é extremamente repulsivo.
Estas foram as diferenças encontradas por Carrigan no interior da comunidade assexual. Na próxima postagem apresentaremos as semelhanças compartilhadas por muitos assexuais entrevistados na pesquisa de Carrigan.

TEXTO COMENTADO
Carrigan, Mark. There’s more to life than sex? Difference and commonality within the asexual community. Sexualities 14(4), 2011, p. 462-478

domingo, 18 de setembro de 2011

Assexualidade e Identidade - Parte 3/3 – A dimensão romântica da assexualidade e as identidades LGBTQ

Nas postagens anteriores apresentamos os resultados da pesquisa da socióloga Kristin Scherrer, da Universidade de Michigan. Retomando, ela entrevistou 102 pessoas assexuais com idades entre 18 e 66 anos, recrutadas da AVEN (Asexual Visibility and Education Network). Entre as respostas dos entrevistados, emergiram três categorias julgadas importantes pela socióloga: a identidade assexual, o caráter essencialista da assexualidade (sobre os quais discutimos nas postagens anteriores) e a dimensão romântica da assexualidade, sobre a qual falaremos nesta postagem. A socióloga também descreve algumas intersecções entre a assexualidade e outras sexualidades marginalizadas, sobretudo as sexualidades LGBTQ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Queers).
Scherrer afirma que as complexidades da identidade assexual surgiram na pesquisa quando se perguntou aos entrevistados como estes descrevem sua sexualidade. 13 deles não responderam e os demais 88 responderam que são assexuais. No entanto, muitos entrevistados utilizaram uma linguagem específica para descrever sua assexualidade. Duas identidades principais foram citadas pelos participantes: identidade romântica e identidade arromântica. Nesta amostra, 11 entrevistados descreveram-se como arromânticos, enquanto 25 se identificaram como românticos. A socióloga diz que não incluiu perguntas sobre identidade romântica no roteiro de entrevistas, mesmo assim, essa característica emergiu entre os entrevistados, revelando sua importância para os participantes.
Um dos entrevistados explicou que ter uma identidade romântica significa que ele separa o romance do aspecto sexual. Diversos entrevistados enfatizam a diferença entre sua identidade sexual e sua identidade romântica. Uma das entrevistadas disse que se identifica como assexual e arromântica, isso significa que ela não deseja uma parceria amorosa, além de não desejar ter relações sexuais. Esta mesma entrevistada afirmou que assumir uma identidade romântica sinaliza o interesse (ou não) de uma pessoa por parcerias amorosas.
Essa diferenciação entre orientação romântica e arromântica torna-se mais óbvia quando os participantes descrevem o que consideram um relacionamento ideal. A descrição do relacionamento ideal feita por aqueles que se identificam como arromânticos é bastante semelhante à amizade, ou seja, um relacionamento com base em afinidades e interesses comuns. Muitos assexuais arromânticos afirmam que não sentem nenhum desejo de contato físico com esses amigos - como beijos, abraços, carícias -, desejando somente uma conexão intelectual e emocional. Os relacionamentos arromânticos não são monógamos. Os indivíduos podem ter vários relacionamentos nesse modelo com diversas pessoas ao mesmo tempo, sem que haja sentimentos de possessividade e ciúmes. Para os arromânticos, o sexo da pessoa com a qual se relacionam não parece ser importante.
Os assexuais que se identificam como românticos, na pesquisa de Scherrer, dizem que o relacionamento romântico ideal envolve algum tipo de contato físico, algum nível de intimidade física. Ao contrário dos relacionamentos dos arromânticos, os relacionamentos dos românticos normalmente são monógamos, duais, com regras bem semelhantes aos relacionamentos de casais não assexuais. Ao contrário dos arromânticos, os assexuais românticos expressam preferência pelo sexo/gênero da pessoa com a qual têm relacionamento amoroso. Podem sentir atração romântica pelo mesmo sexo, por sexo diferente, por ambos os sexos, por qualquer identidade de gênero. 25% dos entrevistados que responderam esta pergunta na pesquisa indicaram, adicionalmente, uma identidade LGBTQ, a qual aponta para o objeto de sua atração romântica: Seus relacionamentos podem ser heterorromânticos, homorromânticos, birromânticos, ou outras classificações relacionadas ao universo queer (universo das sexualidades não normativas).
Um achado interessante da pesquisa de Scherrer diz respeito à situacionalidade das identidades assexuais. Alguns entrevistados revelaram invocar diferentes identidades, dependendo do meio em que estão em determinados momentos. Uma das entrevistadas revelou que, quando está no meio assexual, identifica-se como assexual ou como lésbica assexual. Quando está no meio queer (portanto, de pessoas não assexuais), identifica-se primeiro como queer, depois como lésbica, por último, como lésbica assexual. Esta entrevistada, portanto, avalia a relevância das informações de sua identidade, invocando aquela que mais se aplica tanto a si mesma, como à comunidade na qual está engajada em determinado momento.
Dos 23 indivíduos que se identificaram como queer nessa amostra, 48% identificou-se romanticamente como bi (bi-curioso ou bissexual). Scherrer observa que este é um percentual elevado de indivíduos bi, quando comparado a outros estudos que incluem gays, lésbicas e bissexuais. Scherrer pondera que essa grande concentração de indivíduos bi entre os assexuais ajuda a iluminar a construção das identidades assexuais. Os assexuais bi revelam sentir-se atraídos pela personalidade, pelo intelecto, características que independem do sexo de potenciais parceiros. Apesar disso, o sexo/gênero do próprio indivíduo parece ser central para a construção de identidade dos assexuais que se identificam como bi.
Para finalizar, Scherrer aponta algumas semelhanças e diferenças entre os assexuais e outras minorias sexuais, como os LGBTQ:
  1. A assexualidade, ou melhor, a falta de desejo/atração sexual, tem sido patologizada pela instituição médica ao longo da histórica, o que a aproxima de outras minorias sexuais.
  2. As identidades e comportamentos LGBTQ têm sido criminalizados pelas instituições jurídicas em diferentes momentos históricos e em diferentes culturas. A assexualidade tem passado despercebida pelas instituições jurídicas, provavelmente pela falta de comportamento sexual dos indivíduos que se identificam como assexuais.
  3. Tanto os assexuais como outras sexualidades minoritárias têm criado comunidades fundamentadas em identidade sexual. Tanto assexuais como lésbicas, gays, bissexuais, transexuais usam as comunidades para obter apoio, conhecer pessoas e também a para a organização política. Tanto os assexuais como os grupos LGBTQ utilizam a internet e as novas tecnologias para a formação de comunidades.
  4. As comunidades LGBTQ, além de estarem na internet, estão também representadas no espaço público real, como bares, livrarias, paradas e grupos organizados. Os assexuais ainda não ocupam o espaço público de forma organizada e coletiva, nem têm a mesma visibilidade que os LGBTQs já conquistaram.
  5. As comunidades LGBTQ têm símbolos culturais (como as bandeiras de arco-íris, entre outros), que devido a sua visibilidade, são amplamente reconhecidos pela população em geral. O mesmo não ocorre com os assexuais; seus símbolos ainda estão muito localizados nas grandes comunidades internacionais, não sendo reconhecidos fora desses espaços.
  6. Tanto assexuais como lésbicas, gays, bissexuais e transexuais passam pelo mesmo processo sociopsicológico de ter que revelar sua sexualidade à família, amigos e comunidade, num movimento conhecido como “sair do armário”.
  7. Tanto indivíduos assexuais como lésbicas, gays, bissexuais e transexuais normalmente sentem que sua sexualidade é inata, biologicamente determinada.
Eu acrescentaria a esta lista mais uma diferença: as principais minorias sexuais são criticadas pelas instituições religiosas, que classificam suas práticas como pecado ou aberração. Isso não acontece com a assexualidade. No que se refere a comportamento sexual, a assexualidade guarda algumas semelhanças com o celibato, comportamento estimulado em determinadas circunstâncias por muitas religiões. No entanto, é importante lembrar que o estigma social sofrido por lésbicas, gays, bissexuais e transexuais também podem atingir os assexuais românticos cuja orientação afetiva não seja a heterorromântica, ou cuja identidade de gênero não seja cisgênero (pessoas que sentem que seu corpo biológico está em conformidade com sua identidade de gênero, que é o contrário de transgênero).

Scherrer afirma que as semelhanças entre os assexuais e outros grupos não heteronormativos poderia estimular o trabalho conjunto desses grupos em direção a uma ação política organizada. Os grupos poderiam, por exemplo, trabalhar coletivamente para a despatologização das identidades dos comportamentos sexuais minoritários e para a mudança do discurso médico sobre sexualidades marginalizadas.

ARTIGO COMENTADO
SCHERRER, K. S. Coming to an asexual identity: negotiating identity, negotiating desire. Sexualities, 2008; Vol 11(5): 621–641

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Entrevista concedida ao jornal Correio Braziliense

Recentemente concedi uma entrevista sobre assexualidade ao Jornal Correio Braziliense, a qual foi publicada em 14 de agosto de 2011. Como foram publicadas somente algumas falas, por questões de espaço, publico abaixo a entrevista completa, a qual acredito ser de interesse dos leitores deste blog: 



1.      O que é um assexual? Pessoas que se masturbam e tem interesse sexual, embora baixo, podem ser consideradas assexuais? Como uma pessoa que fica excitada - como as que se masturbam - pode ser considerada assexual?

Ainda não há um consenso no meio científico sobre o que seja assexualidade. Trata-se de uma abordagem diferente da falta de desejo/atração sexual, que sempre foi tratada pela ciência como transtorno. As comunidades de assexuais começaram a surgir nos Estados Unidos no começo do século XXI. A principal comunidade, a AVEN (Asexual Visibility and Education Network), desde 2001 vem moldando uma definição de assexualidade, que foi mudando com o tempo, e ainda está sendo construída. A ciência – principalmente a medicina e a psicologia nos EUA - começou a se interessar pela assexualidade principalmente por causa da repercussão do tema em programas de televisão norte-americanos. Entre 2006 e 2007, os assexuais da AVEN estiveram em pelo menos 5 programas de televisão de grande audiência nos EUA. Isso impulsionou o interesse de pesquisadores acadêmicos nessa nova abordagem da falta de desejo e/ou atração sexual. O que os assexuais da AVEN reivindicam é que a assexualidade seja considerada orientação sexual, tão legítima quanto a heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade, não como transtorno sexual A definição de assexual proposta pela AVEN, atualmente, é alguém que não sente atração sexual. Mas é importante ressaltar que essa não é a única definição o possível. Uma vez que não existe uma definição “oficial” do que seja assexualidade, também não há um consenso sobre quem pode ser considerado assexual ou não. Na AVEN, por exemplo, não há nenhum impedimento para que uma pessoa que se masturba se considere assexual, desde que ela não tenha atração sexual direcionada a outra pessoa. Não há nada de errado com o corpo da pessoa que se identifica como assexual; o corpo tem as mesmas respostas de qualquer outra pessoa. Só que, quando essa resposta existe, ela é autodirecionada, não está associada ao sexo com parceiro. É bom lembrar que a definição proposta pela AVEN fala em atração sexual. A palavra atração pressupõe o direcionamento do desejo para outra pessoa. Como a masturbação sempre foi vista como uma forma primária, infantil, imatura e incompleta de sexualidade, é difícil para nós percebermos a masturbação como um fim em si mesma. Costumamos ver a masturbação como algo que deve necessariamente evoluir para o sexo com parceiro. Isso não acontece com os assexuais que se masturbam. Eles descrevem essa experiência como uma liberação de stress, ato mecânico, sem fantasias, apesar de ser prazeroso para alguns. Existem assexuais que não sentem a necessidade da masturbação. Outra coisa importante a ressaltar é que assexualidade nada tem a ver com moralidade ou religiosidade (que muitas vezes leva as pessoas ao celibato). A assexualidade tem sido associada à falta de atração sexual, não com o comportamento sexual. Não é o que a pessoa faz, mas o que ela sente.

2.      Existe mais de um tipo de assexual? Li que antigamente a AVEN usava uma classificação que os separava em A, B, C e D.

A AVEN propõe algumas classificações. É importante ressaltar que o conhecimento que temos hoje sobre assexualidade foi construído na troca de experiências entre os assexuais nas comunidades virtuais, sobretudo a AVEN. Até mesmo os cientistas que começam estudar a assexualidade, partem sempre a partir do conhecimento já construído pela AVEN. Segundo a AVEN, existem assexuais que se masturbam, outros que não se masturbam. Existem assexuais que não sentem atração romântica por ninguém, ou seja, não se apaixonam e não buscam parceria romântica. Por outro lado, existem aqueles que desejam uma parceria romântica (sem sexo). Aqueles que buscam parceria romântica podem buscar essa parceria em pessoas do mesmo sexo, ou de sexo diferente, ou o sexo da pessoa amada pode ser indiferente, tanto faz. Portanto, um assexual pode ser também gay, lésbica. A AVEN classifica esses assexuais como heterorromântico, homorromântico ou birromântico. É importante frisar que esses relacionamentos não incluem atração sexual por parte do assexual. Porém, é possível que um assexual esteja num relacionamento com alguém que não seja assexual. Nesse caso, o assexual pode concordar em fazer sexo para agradar e satisfazer seu parceiro; ou então, pode manter com o parceiro uma relação romântica, liberando-o para relações sexuais com outras pessoas. A AVEN afirma também que existem indivíduos que se consideram assexuais, porém, muito raramente, podem vir a sentir atração sexual por uma pessoa com a qual estejam emocionalmente e romanticamente envolvidos. Chamam esses indivíduos de demissexuais (estariam no meio do caminho entre a sexualidade e a assexualidade). Um sujeito demissexual pode se identificar como assexual. Entre a assexualidade e a sexualidade existe uma área cinza, na qual podem se situar sujeitos que sintam atração sexual em situações muito específicas. Esses são chamados de Gray-A.
A AVEN também faz questão de enfatizar que assexualidade não é celibato. Celibato é uma escolha (a pessoa decide conscientemente a não manter relacionamentos sexuais/amorosos). Segundo a AVEN, a assexualidade não é uma escolha, mas uma forma de ser. Como comecei a estudar a assexualidade há pouco tempo, desconheço detalhes dessa classificação que você apontou.

3.      Algumas pessoas dizem que a medida para saber se o tratamento com um especialista é válido ou não, é o incômodo que a pessoa sente ou não sendo assexual. Os assexuais dizem que, se nada está quebrado, não o que ser concertado. O que você acha?

Uma das grandes premissas em sexualidade é de que o desejo sexual é biológico e universal, ou seja, todas as pessoas, de todas as culturas, de todas as épocas têm que sentir desejo, caso contrário, são necessariamente portadoras de um transtorno. Aliado a isso, temos um grande mercado da sexualidade, que nos impõe padrões de comportamento e desejo, que, quando não alcançados, nos transformam em portadores de transtorno.
Vale lembrar que nem toda falta de desejo/atração sexual é necessariamente assexualidade, assim como nem toda falta de desejo/atração sexual é necessariamente um transtorno. Até hoje a ciência tem tratado toda falta de desejo/atração sexual como doença que precisa necessariamente ser curada. Como existem pessoas que afirmam não sentir atração sexual sem que isso constitua nenhuma angústia, é necessário que a ciência comece a rever seus conceitos. Se uma pessoa sentiu desejo a vida toda e, de repente, para de sentir, é provável que haja realmente algum problema físico ou psicológico, um problema que requer tratamento, principalmente se traz infelicidade à pessoa. Mas se uma pessoa que não tem nenhum problema físico ou psicológico, mesmo assim não tem nenhum interesse por sexo e vive feliz assim, não há motivos para classificá-la como portadora de transtorno, em minha opinião.

4.      Que possíveis causas podem levar à falta de interesse sexual? Como, depressão, por exemplo?

São muitas as causas que podem levar à falta de interesse por sexo, a literatura médica e psicológica tem numerosos estudos de caso a respeito. Uma pessoa pode ter tido uma experiência traumática, pode ter um desequilíbrio hormonal, pode ter algum transtorno mental, depressão, ansiedade, stress, as causas podem ser inúmeras. Se a pessoa se sente infeliz por não sentir desejo, deve procurar ajuda e tratamento. Nesses casos, normalmente a falta de desejo não é um sintoma isolado, mas é conseqüência de um conjunto de outros sintomas que devem ser estudados e tratados. Se a falta de desejo é isolada e não causa nenhum desconforto ou infelicidade à pessoa, a assexualidade deve ser considerada como uma possibilidade. Os sujeitos assexuais, nas comunidades virtuais, relatam sua felicidade ao descobrir que existem outras pessoas como eles. Eram infelizes quando se sentiam “alienígenas, esquisitos, diferentes dos demais” na sociedade; mas sentem-se aliviados quando descobrem que não estão sozinhos, que a assexualidade é uma possibilidade de orientação sexual. Ainda não se tem certeza, mas pelo menos duas pesquisas calculam que os assexuais compõem 1% da população, a minoria das minorias. Os assexuais, portanto, vivem num isolamento demográfico e geográfico, dificilmente convivendo com outros como eles. Somente as comunidades virtuais podem fornecer um meio de comunicação que pode se constituir em base identitária para essa população. Enquanto os homossexuais têm bastante visibilidade na sociedade e na cultura, o mesmo não ocorre com a assexualidade. Um adolescente que não se identifica com as sexualidades presentes na sociedade, não tem em quem se mirar, nem sabe que a assexualidade existe, não tem com quem conversar a respeito, fica em total solidão. Isso pode levar esse adolescente a um quadro depressivo, uma sensação de não adequação à sociedade. E aí, pode-se inverter a compreensão do problema, pode-se pensar que ele não sente desejo porque tem depressão, quando é exatamente o contrário: ele tem depressão porque se sente incapaz de ser aquilo que se espera dele, por não compreender porque é diferente das outras pessoas.

5.      Assexualidade pode surgir já na maturidade? Por exemplo, você tem um casamento feliz e normal, até que um dia, perde o interesse, ou é algo vivenciado desde a infância?

Ainda estamos aprendendo sobre a assexualidade. Existem pouquíssimos estudos (o total de artigos não chega a 20, todos no exterior, ainda não há livros sobre o assunto) São comuns os relatos de assexuais que afirmam que sempre se sentiram diferentes, nunca se identificaram com a sexualidade presente na sociedade. Mas muitos deles levaram uma vida bastante convencional, namoraram, casaram, tiveram filhos. Como eu disse, não é o comportamento que determina a assexualidade, mas a falta de desejo e/ou atração sexual. Da mesma forma, existem homossexuais que se comportam como heterossexuais a vida toda, namoram, casam-se, têm filhos. Mas isso não faz deles heterossexuais; eles simplesmente agem dessa forma porque é o que a sociedade espera deles. Alguns homossexuais jamais sairão do armário, por diversos motivos; outros, pode ser que depois de 40 anos de casados, resolvam assumir sua homossexualidade. A mesma coisa ocorre com os assexuais, eles podem estar em relacionamentos convencionais, sem saber que a assexualidade é uma possibilidade que poderia explicar o que eles sentem. Outros pensam que tem um transtorno sexual, alguns até podem buscar tratamento. Na perspectiva da orientação sexual, a AVEN parece defender a idéia de que pessoas assexuais sempre foram assexuais, assim como heterossexuais sempre foram heterossexuais e homossexuais sempre foram homossexuais. Parecem acreditar que a orientação sexual é imutável. Eu não acredito que a explicação seja assim tão simples.

6.      Há mais mulheres que se dizem assexuais do que homens? Por que isso ocorre? Pode estar relacionado à criação que as mulheres recebem, por exemplo? Porque homens costumam ser educados para máquinas do sexo...

Não temos estatísticas confiáveis sobre esses números. Os poucos dados que temos vêm da AVEN, que de vez em quando faz pesquisa entre seus membros. Os números apurados por eles são representativos apenas da comunidade. Temos que considerar que existem milhares de assexuais que não têm acesso à internet, milhares que nem sabem que a assexualidade existe, milhares que não se identificam como assexuais. Portanto, não dá para afirmar com certeza que existem mais mulheres assexuais do que homens assexuais, pois não há levantamentos com rigor científico. Mas, como você muito bem colocou, é possível que haja mais mulheres que se identificam como assexuais do que homens com a mesma autoidentificação, pelo menos nas comunidades. É bem provável que haja um viés de gênero nessa estatística informal, pelos motivos que você apontou.

7.      É mais fácil ser um assexual do que ser um gay, por exemplo? O pesquisador Anthony Bogaert diz  (me corrija se eu estiver falando besteira!) que eles são quase que invisíveis porque seu comportamento não choca tanto a sociedade, já alguns dizem que não gostar de sexo numa sociedade que respira sexo é bastante difícil.

Para responder esta pergunta é necessário destacar duas coisas importantes. A primeira, é que nossos relacionamentos sexuais são privados (embora as pessoas de fora possam supor que determinado casal têm relações sexuais, não pode ter certeza, pois as relações são privadas); mas nossos relacionamentos afetivos são públicos (as pessoas próximas sabem se você está namorando e com quem, mesmo as que não são próximas sabem reconhecer um casal apaixonado). A segunda, é que existem assexuais que são gays. Quando um assexual gay estiver namorando alguém do mesmo sexo, apesar de ser um relacionamento sem sexo, ninguém sabe disso, as pessoas que não sabem que ele é assexual vão supor que ele tem relações com o namorado. Isso coloca esses assexuais na mira de fogo do preconceito homofóbico. Já os assexuais que mantém relacionamento com pessoas do outro sexo (heterorromânticos) não sofrerão esse preconceito; a relação afetiva, que é pública, será considerada “normal”. Todos os que olharem para esse casal vão supor que eles fazem sexo “normal”.
Isso dito, os assexuais chamados pela AVEN de arromânticos, que não desejam parceria afetiva, sofrem certa pressão social para estar em um relacionamento, namorarem, formarem família. Essa pressão vem da família e dos amigos. As pessoas assexuais podem viver sua vida sem saírem do armário. Quando se assumem como assexuais, certamente vão sentir certa pressão de seu meio, que os verão com “anormais”, “doentes”. Alguns assexuais relatam ter sofrido discriminação homofóbica na adolescência. Quando você não busca o sexo, o namoro, seu amigos imediatamente te classificam como gay que não tem coragem de sair do armário. Então, muitos acabam sofrendo discriminação homofóbica mesmo sem serem gays. Muitos vão ceder às pressões e vão buscar parceria sexual com o sexo diferente, saindo frustrados da experiência. Muitos, ainda, vão buscar parceria sexual com alguém do mesmo sexo, pensando que podem ser gays, saindo igualmente frustrados da experiência. Foi isso que aconteceu com o Alexandre, o personagem assexual da novela Malhação no primeiro semestre de 2010.
Portanto, as discriminações sofridas por gays e assexuais são diferentes. Um assexual arromântico ou heterorromântico dificilmente vai sofrer violência física que os gays sofrem, pois não serão reconhecidos na rua como pertencentes a uma orientação sexual minoritária. Mas um assexual homorromântico pode sofrer os mesmos preconceitos sofridos por gays e lésbicas, pois as manifestações afetivas em público poderão sinalizar a homossexualidade. Ninguém sabe que o casal não faz sexo.
Os movimentos assexuais nos EUA têm tentado uma aproximação com os movimentos LGBT, mas não têm tido sucesso, justamente por causa disso. Aos assexuais interessa estar no movimento LGBT por causa da visibilidade que esse movimento já alcançou historicamente. Por outro lado, os LGBTs não sentem identificação com os assexuais, pois seu movimento é construído em torno de um comportamento sexual discriminado. Já o movimento assexual é construído em torno de uma identidade que é caracterizada pela falta de um comportamento sexual. Enquanto minoria sexual, creio que os assexuais deveriam ter lugar no movimento LGBT.

8.      A internet é uma facilitadora para os assexuais, no sentido em que provê com informações e permite encontros, etc?

Sim. Antes das redes sociais, os assexuais viviam em condição de isolamento. Foi o advento da internet e das redes e comunidades sociais que permitiu que assexuais de diferentes partes do mundo aprendessem com sua troca de experiências e construíssem uma identidade assexual. Mas é importante destacar que como nem todo mundo tem acesso à internet, nosso conhecimento fica restrito às experiências daqueles que têm acesso. Pode-se dizer que quando a história da assexualidade for escrita um dia, ela vai ser dividida em antes e depois da AVEN.

sábado, 30 de julho de 2011

Assexualidade e Identidade - Parte 2/3 – O essencialismo

Hoje continuaremos a explorar os resultados da pesquisa feita pela socióloga Kristin Scherrer, da Universidade de Michigan, junto a 102 pessoas assexuais com idades entre 18 e 66 anos, recrutadas da AVEN (Asexual Visibility and Education Network). Na postagem anterior, fizemos considerações sobre a identidade assexual, que era uma das três categorias analisadas pela pesquisadora. Hoje, falaremos sobre a segunda categoria, que é o caráter essencialista da assexualidade, que emergiu como um ponto relevante na análise de Scherrer.
Não vou abordar conceitos filosóficos complexos para explicar o que é essencialismo. Para os fins deste texto, elejo a explicação mais simples possível, proposta pela Wikipedia, que diz que “essencialismo é uma generalização que determina que certas características de um grupo (de pessoas, de coisas, de idéias) são universais e não dependem de contextos específicos.” Isso é muito presente nas concepções correntes de sexualidade.
Quando dizemos que todo mundo sente desejo sexual, sem considerar que as pessoas são diferentes, que vivem em culturas diferentes, as quais impactam a forma com que vivem sua sexualidade, estamos defendendo uma visão essencialista de sexualidade. O contrário do essencialismo seria considerar que as pessoas, coisas e ideias sofrem os efeitos de diferentes contextos sociais, culturais e históricos, não havendo, portanto, verdades absolutas aplicáveis a todos os sujeitos de todas as culturas de todas as épocas. Nesse sentido, as “verdades” seriam social, cultural e historicamente construídas nas trajetórias individuais e sociais dos sujeitos. Quando dizemos que os indivíduos nascem homossexuais, heterossexuais, bissexuais ou assexuais, estamos reafirmando idéias essencialistas de sexualidade. O mesmo ocorre quando dizemos que cada um escolhe sua orientação sexual, também estamos sendo essencialistas.

 Scherrer conclui que as identidades assexuais têm um relacionamento complexo com noções essencialistas de sexualidade. Muitos dos entrevistados afirmam que sempre se sentiram diferentes dos demais, e que ao “descobrir” sua assexualidade, tudo fez sentido. Para muitos, a “descoberta” da assexualidade é uma revelação de uma verdade essencial que sempre existiu, mas que estava oculta para eles. A linguagem mostra ser elemento essencial dessa descoberta. Parte da dificuldade em se assumir como assexual estava na falta de linguagem apropriada para se nomear identidades e sentimentos. As comunidades virtuais de assexuais fornecem um novo vocabulário descritivo e identitário que viabiliza esse processo.
A pesquisadora chama a atenção para um aspecto peculiar da assexualidade: a identidade assexual gira em torno de uma falta (a falta de atração/desejo sexual), e não da presença ou da existência de uma característica específica (como no casso da homossexualidade, heterossexualidade e bissexualidade). Alguns entrevistados afirmaram, também, que sua identidade assexual só é importante quando estão em um espaço assexual, como as comunidades, sendo totalmente irrelevante em outras situações. Muitos entrevistados fizeram questão de especificar a distinção entre assexualidade e celibato; essa diferença parece ser muito importante na construção de sua identidade assexual.
Todos esses elementos mostram o quanto os entrevistados veem sua assexualidade como “natural” e como essa “naturalidade” é importante em seu processo de construção de identidade. Para Scherrer, o site da AVEN facilita não somente a formação das identidades assexuais, mas também mostra a importância da legitimação da assexualidade como uma característica inata e biológica do indivíduo, ao contrário do celibato, o qual, segundo a AVEN, é uma escolha. Como orientação sexual relativamente nova, a assexualidade ainda precisa ser legitimada. A assencialização dos comportamentos e identidades sexuais tem se mostrado uma estratégia útil de legitimação para outros grupos, como gays e lésbicas. Portanto, parece lógico que seja utilizada também por grupos assexuais.
Scherrer constatou uma contradição interessanrte. Para legitimar sua assexualidade, os entrevistados tentam primeiro desconstruir a idéia essencialista de que a atração sexual é “natural” e “universal”, uma vez que parte da população não a sente. Por outro lado, descrevem sua assexualidade como “natural”, partindo portanto, do mesmo essencialismo que tentam desconstruir.
Na próxima postagem finalizaremos a discussão sobre este artigo, explorando as descobertas de Scherrer sobre a dimensão romântica da assexualidade. Até lá!

ARTIGO COMENTADO

SCHERRER, K. S. Coming to an asexual identity: negotiating identity, negotiating desire. Sexualities, 2008; Vol 11(5): 621–641

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Assexualidade e Identidade - Parte 1/3 - O significado

À medida que cresce timidamente o interesse da ciência pela assexualidade, compreendida como orientação dos indivíduos que não sentem atração sexual, ainda são poucas as pesquisas que exploram a identidade assexual, que é o tema do artigo sobre o qual vamos falar hoje e nas duas próximas postagens, considerando a grande riqueza da pesquisa feita pela socióloga Kristin Scherrer. 
A maior parte das poucas pesquisas publicadas sobre assexualidade parece concentrar-se em sua prevalência, em sua relação com transtornos sexuais (como o transtorno do desejo sexual hipoativo e o transtorno da aversão sexual), nos níveis de desejo sexual, no comportamento sexual de pessoas que se identificam como assexuais, bem como outras questões colocadas pela medicina e pela psicologia.
A pesquisa da socióloga Kristin S. Scherrer, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, traz um conjunto diferente de questões, mais relacionado com as experiências relatadas por indivíduos assexuais no âmbito de sua identidade. Citando Paula Rust, Scherrer afirma que o estudo da identidade é relevante, pois embora a produção da identidade seja um processo psicossocial, as conseqüências da identidade são sociais e políticas. Segundo ela, a identidade não é somente um processo introspectivo, mas ganha significado através da compreensão cultural mais ampla daquela identidade, ligando um indivíduo a um grupo com o qual este se identifica. Essa experiência identitária compartilhada pode favorecer a ação social e política, como por exemplo, a visibilidade e a demanda por direitos, como tem ocorrido com diversas minorias sexuais.
Antes da internet, os assexuais viviam isolados geograficamente, sem saber que havia outras pessoas vivendo as mesmas experiências e dificuldades enfrentadas por eles e elas. A partir da formação das comunidades virtuais e da conseqüente troca de experiências, os indivíduos assexuais membros desses espaços passaram a compartilhar uma experiência identitária coletiva, obviamente apropriada e ressignificada por cada um.
Scherrer dá como exemplo os grupos formados por gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e outras minorias sexuais. A adesão a uma identidade LGBT traz ao indivíduo a experiência social daquela identidade, que no caso das minorias sexuais, costuma ser marcada pelo preconceito e discriminação. Tanto para os LGBTs como para os assexuais, um dos espaços dessa discriminação tem sido historicamente o campo das instituições de saúde física e mental, ou seja, a medicina.
Para sua pesquisa, publicada em 2008, Scherrer recrutou 102 pessoas que se identificam como assexuais no site da AVEN (Asexual Visibility and Education Network). Essas pessoas (homens e mulheres) são de diferentes raças e nacionalidades, tendo idades entre 18 a 66 anos. A pesquisadora aplicou a essas pessoas um roteiro de entrevistas on-line com perguntas abertas. Na análise das respostas dos entrevistados, três temáticas principais emergiram no âmbito da identidade: 1) o significado da identidade assexual; 2) o caráter essencialista da assexualidade;  e 3) a dimensão romântica da assexualidade. Hoje falaremos sobre o significado da identidade assexual, deixando os dois outros temas para as duas próximas postagens.
Scherrer fez aos participantes a seguinte pergunta: O que a identidade assexual significa para você? A resposta de 44% dos entrevistados foi a própria definição de assexualidade proposta pela AVEN (“assexual é uma pessoa que não sente atração sexual”). A pesquisadora observa que para essas pessoas é difícil separar o significado internalizado da assexualidade do conceito da AVEN.
Embora a falta de atração sexual tenha sido bastante invocada para descrever a assexualidade, essa não foi a única definição utilizada pelos entrevistados. Parte dos respondentes definiu sua assexualidade como falta de interesse na atividade sexual, não necessariamente como falta de atração sexual. Portanto, para esses entrevistados, aparentemente o comportamento sexual é mais definidor da assexualidade do que a falta de atração.
Outro ponto interessante que surgiu como resultado desta pesquisa é o que, de fato, constitui sexo para cada pessoa. Embora alguns entrevistados tenham afirmado não sentir desejo sexual, demonstraram interesse em algum tipo de intimidade física, como beijos e abraços, por exemplo. Parece que a compreensão de muitos é que o sexo só acontece quando existe a penetração da vagina pelo pênis, o que a autora chama de compreensão androcêntrica do sexo, uma vez que é definida pela ação do homem sobre a mulher. Os entrevistados parecem julgar importante para a identidade assexual a definição clara da fronteira entre o carinho físico e o ato sexual explícito.
Embora a pesquisadora não tenha feito perguntas relativas à masturbação, cerca de 10% dos entrevistados mencionou a masturbação na descrição de sua identidade assexual. Alguns não sentem necessidade ou interesse pela masturbação. Outros revelam que praticam a masturbação, mas sem que haja significado sexual no ato, não sentindo necessidade de evoluir para o ato sexual com parceiro. Consideram a masturbação um ato corporal mecânico desconectado do sexo. Para Scherrer, essa separação entre masturbação e sexo é interessante, se considerarmos a associação histórica entre esses dois conceitos.
Scherrer conclui esta parte afirmando que a construção das identidades assexuais problematiza as fronteiras entre o sexual e o não sexual. A redefinição de comportamentos tradicionalmente considerados sexuais como não sexuais desafia o binarismo sexual/não sexual. As definições assexuais de sexualidade revelam a construção de atos sexuais, como a masturbação, beijos e abraços como desassociados de seus significados sexuais normalmente atribuídos a esses atos.
Na próximas duas postagens falaremos sobre os dois outros temas explorados por Scherrer neste artigo, ou seja, o caráter essencialista da assexualidade e a dimensão romântica nos relacionamentos assexuais.

ARTIGO COMENTADO

SCHERRER, K. S. Coming to an asexual identity: negotiating identity, negotiating desire. Sexualities, 2008; Vol 11(5): 621–641

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A assexualidade e o DSM

Hoje falaremos um pouquinho sobre um documento nascido nos Estados Unidos, o qual classifica, segundo critérios nem sempre claros, os chamados transtornos mentais. Trata-se do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - mais conhecido como DSM, na sigla em inglês -, publicado desde 1952 pela Associação Americana de Psiquiatria. Este documento constitui a fonte de referência mais influente sobre o que é considerado “normal” ou “anormal” em saúde mental, não somente nos Estados Unidos, mas também em outros países.

Atualmente em sua 4ª. edição (DSM-IV), o Manual é utilizado para diagnóstico e classificação de transtornos mentais por profissionais da área da saúde mental, convênios médicos, clínicas, hospitais, indústrias farmacêuticas e outras instituições do campo da saúde nos Estados Unidos. A Associação Americana de Psiquiatria tem, portanto, o monopólio do diagnóstico e da classificação dos transtornos mentais, o que impulsiona um mercado formidável de tratamentos e medicamentos para milhões de pessoas, movimentando milhões e milhões de dólares por ano.
Apesar das críticas e questionamentos ao Manual levantados por diversas áreas do conhecimento (afinal, que confiabilidade pode ter um diagnóstico de transtorno mental que segue uma classificação pré-existente, sobretudo se tal diagnóstico leva a tratamentos e medicamentos, cuja necessidade dificilmente pode ser comprovada?), o DSM continua sendo a bíblia da psiquiatria americana.
A cada nova edição do documento, novos transtornos são acrescentados ou retirados, novas classificações são propostas e criadas, caminhando-se cada vez mais para a biologização dos distúrbios. Trata-se de um mecanismo de medicalização dos comportamentos sociais, que é um tema que temos repetido aqui no Blog desde o início. A primeira versão, de 1952, listava um total de 106 transtornos mentais; a versão mais recente, de 1994 traz 357 transtornos.
Para se ter uma idéia da importância política do DSM para a sociedade como um todo, basta lembrar que somente em 1973, quando o documento retirou a homossexualidade de sua lista de transtornos mentais, é que abriu-se as portas para as lutas pelos direitos civis de pessoas homossexuais nos Estados Unidos, e também no resto do mundo. Portanto, essas classificações vão muito além do interesse de médicos e pessoas portadoras de transtorno; elas têm um impacto social que não pode ser desconsiderado.
A esta altura, o leitor já deve estar concluindo que o DSM também medicaliza, patologiza e biologiza diferentes condutas sexuais da população, classificando-as como transtornos que necessitam de tratamento. E é justamente nessa perspectiva que encontramos a assexualidade fazendo parte dessa classificação, ainda que a palavra assexualidade não figure no Manual.
A pesquisadora Jane Russo, em trabalho de 2004, observa que, ao tratar dos transtornos relacionados à sexualidade, o Manual traz uma concepção do que significa “sexualidade normal”. A 4ª. versão do Manual define disfunção sexual como “uma perturbação nos processos que caracterizam o ciclo de resposta sexual ou por dor associada com o intercurso sexual.” O ciclo de resposta sexual compreende as fases de desejo, excitação, orgasmo e resolução. Para cada uma dessas fases, são listados transtornos específicos.
O que nos interessa aqui é o chamado Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo, definido pelo Manual como “deficiência ou ausência de fantasias sexuais e desejo de ter atividade sexual.” Jane Russo destaca que, ao referir-se a “deficiência de fantasias” ou “baixo desejo”, o Manual sugere que existe um nível normal de fantasias e desejos, e que estar abaixo desse nível significa ser portador de um distúrbio. Como a assexualidade é caracterizada pela ausência de desejo e/ou atração sexual, isso a coloca automaticamente na lista dos distúrbios sexuais, segundo o DSM. Ou seja, para o Manual, quem não tem interesse pela atividade sexual é necessariamente portador de um transtorno mental.
Ciente disso, o movimento assexual norte-americano, mais precisamente um grupo de trabalho composto por membros da AVEN (Asexual Visibility and Education Network) tem atuado em conjunto com membros da Associação Americana de Psiquiatria para que essa descrição seja alterada, pois para o movimento, a falta de interesse por sexo não deve ser considerada necessariamente um distúrbio, uma vez que muitas pessoas vivem muito bem sem sexo.
Está prevista uma nova edição do DSM a ser publicada em 2013, e é justamente nesta edição que os assexuais norte-americanos esperam poder incidir. A exemplo dos desdobramentos da retirada da homossexualidade da lista de transtornos mentais em 1973, espera-se que a modificação proposta pelo movimento assexual possa constituir o primeiro passo para o reconhecimento da assexualidade como orientação sexual.

Referência Bibliográfica.

RUSSO, Jane Araújo. Do desvio ao transtorno: a medicalização da sexualidade na nosografia psiquiátrica contemporânea. In: PISCITELLI, A.; GREGORI, M. F.; CARRARA, S. Sexualidades e saberes: convenções e fronteiras. Rio de Janeiro: Garamond, 2004

Nota: Agradeço mais uma vez aos queridos/as leitores/as que têm prestigiado o Blog Assexualidades.  Gostaria de ter tempo para escrever com mais frequência, mas as atividades do doutorado, do trabalho e dos estudos roubam bastante meu tempo. Mas na medida do possível, continuarei a trazer a vocês os conhecimentos sobre assexualidade construídos ao longo do caminho. Muito obrigada!