quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A assexualidade e as comunidades virtuais

Assim como outras sexualidades, a assexualidade sempre existiu, mas diferentemente da homossexualidade, nunca foi ilegal, imoral ou controversa, tendo passado mais ou menos despercebida ao longo da história, tanto na percepção da sociedade quanto no interesse da ciência, geralmente igualada ao celibato. Até o advento da internet, os indivíduos assexuais relatam ter vivido em seu isolamento demográfico, desconhecendo a existência de outras pessoas que, como eles, travavam uma luta consigo mesmos e com a sociedade por serem diferentes da maioria. A partir do início do século XXI, a popularidade das redes sociais na internet facilitou a formação de comunidades construídas em torno de identidades assexuais.

A internet disponibilizou espaço virtual para diversos grupos estigmatizados e marginalizados, possibilitando o encontro, a troca de experiências e o apoio identitário mútuo através das comunidades virtuais. Como para grupos de outras minorias sexuais, a privacidade oferecida pela internet facilita a trajetória dos indivíduos na formação de identidades assexuais. Pela primeira vez, membros de identidades marginalizadas puderam juntar-se em comunidades compartilhando suas experiências, aprendendo com as experiências alheias e contando com apoio emocional do grupo.

As comunidades virtuais têm como base a proximidade intelectual e emocional, e não a mera proximidade física ou geográfica. O filósofo tunisiano Pierre Lévy afirma que as comunidades virtuais constituem uma nova forma de fazer sociedade, uma forma transitória, desprendida do tempo e do espaço, baseada mais na cooperação e nas trocas objetivas entre os membros do que na permanência das relações. Resta investigar as possibilidades de formação de identidades coletivas assexuais nas comunidades virtuais, sendo a sexualidade um tema de caráter íntimo e privado que passa a ser discutido publicamente nos fóruns e salas de bate-papo.

A história da assexualidade pode ser dividida em antes e depois da criação da AVEN (Asexual Visibility and Education Network http://www.asexuality.org/ ), comunidade virtual de assexuais fundada nos Estados Unidos em 2001. A AVEN afirma ter como objetivos a promoção da discussão pública sobre a assexualidade, bem como a promoção da aceitação social da assexualidade como orientação sexual. A comunidade define assexuais como “pessoas que não sentem atração sexual”. A comunidade foi criada numa época em que havia pouquíssima informação sobre assexualidade à disposição das pessoas assexuais; portanto, começou como um território de discussão e evoluiu para um espaço de construção de conhecimento. A partir do compartilhamento e sistematização de experiências e vivências assexuais dos membros, o conhecimento construído é disponibilizado, modelando, de certa forma, a representação que os assexuais membros da comunidade têm de si mesmos.

Segundo a AVEN, os assexuais constituem uma categoria altamente heterogênea. Existem os não românticos (ou arromânticos), que são aqueles que além de não sentir atração sexual também não sentem atração romântica ou afetiva, e os românticos, que apesar de não sentirem atração sexual, sentem atração afetiva, ou seja, são capazes de apaixonar-se e almejam um relacionamento amoroso. Ainda segundo a AVEN, a atração afetiva dos assexuais românticos pode ter orientação homorromântica, heterorromântica, birromântica, panromântica, entre outras. Existem aqueles chamados demissexuais, os quais só experimentam atração sexual quando existe envolvimento romântico, situando-se no “meio do caminho” entre a sexualidade e a assexualidade. Sabe-se também que parte dos assexuais pratica a masturbação, sem que isso tenha nenhum significado erótico para esses sujeitos. Outra constatação da AVEN, é que muitos assexuais românticos estão envolvidos em relacionamentos com não assexuais, surgindo a necessidade de negociação da freqüência da atividade sexual, ou da formação de relacionamentos não monogâmicos.

A AVEN também tem promovido a formação de comunidades reais de assexuais em diversas cidades dos Estados Unidos. Na cidade de São Francisco, na Califórnia, membros da comunidade têm constituído um bloco animado nas paradas de orgulho LGBTQ nos últimos anos, distribuindo folhetos ao público, explicando o que é assexualidade e buscando uma aproximação com o movimento, tentando ocupar um lugar ao sol entre os queers ou questioning da sigla.

Desde sua fundação, a AVEN tornou-se a maior comunidade de assexuais do mundo, contando com mais de 30.000 membros no mundo todo. Hoje, a comunidade possui sites em chinês, checo, holandês, finlandês, francês, alemão, hebraico, italiano, espanhol, japonês, polonês, russo e turco, além do original em inglês, constituindo-se como a mais importante fonte de informações sobre assexualidade para assexuais, seus amigos e famílias, pesquisadores e a imprensa. O jovem fundador da AVEN, assim como outros membros da comunidade, tem participado de diversos programas de entrevistas de televisão e rádio nos Estados Unidos, trazendo informações sobre a assexualidade e contribuindo para a sua visibilidade.

Esta nova exposição favoreceu o debate popular sobre a assexualidade nos meios de comunicação norteamericanos. Outro importante mérito da AVEN foi ter impulsionado as pesquisas acadêmico-científicas sobre a assexualidade, até então escassas e esparsas. Falaremos detalhadamente sobre essas pesquisas nas próximas semanas.

Vale destacar que os conhecimentos sobre assexualidade construídos pelos membros assexuais da AVEN têm sua base na troca de experiências entre eles. Portanto, trata-se de um conhecimento ainda não cientificamente sistematizado. Mas isso não diminui nem um pouco sua importância, visto que têm servido de base para o avanço da pesquisa científica sobre a assexualidade. É importante também deixar claro que esse conjunto de conhecimentos de membros da AVEN não é aceito como verdade por todos os assexuais. Existem muitas controvérsias. A plularidade das experiências mostra que ainda são necessários muitos estudos para se traçar um retrato da população assexual que melhor corresponda à realidade de suas vivências.

Enquanto nos Estados Unidos os assexuais já constituem um movimento social organizado em torno da identidade assexual, isso ainda não ocorre no Brasil. Em nosso país, a assexualidade ainda é desconhecida do grande público. O tema tem surgido esporadicamente em revistas femininas, em matérias curtas em canais de televisão e jornais. A inclusão de um personagem assexual na novela Malhação, da Rede Globo, também fez crescer o interesse e a curiosidade do público sobre a assexualidade em 2010.

Os assexuais brasileiros também têm nas comunidades virtuais (especialmente no Orkut) seus espaços de encontro e diálogo. Um importante canal para os assexuais brasileiros é o Blog Assexualidade ( www.assexualidade.com.br/blog), criado por um jovem assexual, que traz reflexões importantes sobre a assexualidade na perspectiva da orientação sexual. Talvez este seja o único espaço virtual independente destinado a acolher e dar voz aos assexuais brasileiros.

Até a próxima.

12 comentários:

  1. Parabéns pela iniciativa! Pioneirismo acadêmico ou científico no Brasil sobre assexualidade.

    No trecho "A atração afetiva dos assexuais românticos pode ter orientação heterossexual, homossexual, bissexual, pansexual", a escolha de palavras pode confundir. Afinal, afeição e sexo são coisas diferentes. 'A atração afetiva dos assexuais românticos pode ter orientação heterorromântica, homorromântica, birromântica, panromântica' conserta a passagem.

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  2. Olá, Elisabete! Eu sou um Assexuado e tenho muita vergonha disso, pois, sei que muitas pessoas não entendem isso e tratam o assunto com muito preconceito. Tenho medo de ser considerado homossexual. Nunca senti nenhum tipo de atração por homens nem por mulheres. Tenho uma grande carinho pelas pessoas ao meu redor, mas nunca tive a vontade de relacionar-me sexualmente. Gostaria muito que as pessoas entendesse o significado da palavra "ASSEXUAL", mas a tal avanço, não veremos tal cedo.

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    1. Cássio,
      Eu entendo perfeitamente oue você está sentindo, pois desde mocinha tive aversão ao sexo, e antes que me perguntem: adianto que não sofri desilusã amorosa, não fui abusada sexualmente, não tenho e nunca tive atração por outra mulher, nào sofri traumas sexuais....) em fim, sou assexuada mesmo! Sou muito romântica, mas isso só tem a ver com carinho, atenção, gentileza, sentimento profundo de amor verdadeiro sem envolvimento sexual. Mas vou lhe confessar uma coisa: meu maior sonho na vida era ser mãe, por isso me casei e recebi essa bênção divina. Só que depois que minha filha nasceu, eu usei de tantos subterfúgios para fugir à "obrigação marital", que meu marido acabou arrumando uma amante.Se por um lado, senti alívio por não ter mais que me submeter ao sexo, por outro senti-me profundamente humilhada e angustiada, por nao poder dividir isso com ninguém. Claro, ninguém me entederia.
      Mas preciso lhe dizer, Cássio, que você não é o único assexuado do mundo. Existem sim muitos homens e mulheres assexuados que procuram sua alma gêmea. Espero que você a encontre, que sejam muito felizes e que possam mostrar ao mundo que existe sim uma forma maravilhosa de amar sem envolviment sexual.
      Me chamo Maria, tenho 55 anos e uma filha que é a razão do meu viver. E vivo a cada dia esperando por dias melhores.

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    2. Puxa cara, que inveja! Queria ter essa liberdade.

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  3. E Eu que sempre me achei "anormal" por ser assim... Gostei da iniciativa e vou pesquisar mais sobre o assunto.

    Abraços.

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  4. Elisabete, desculpe, só para constar o link está errado.
    O correto é este:

    http://www.assexualidade.com.br/

    Novamente, abraços.

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  5. Sou Luciene. Tenho 31 anos e nunca tive atos sexuais e nem pretendo. Também não tenho interesse em namorar (sou totalmente arromântica). Sou livre e feliz. Demorei um pouco para constatar o que acontecia comigo, pois nunca me interessava por ninguém e estava sempre fugindo de cantadas. Tenho desejo sexual(pois tenho hormônios), mas não tenho atração sexual por ninguém, pois desejo e atração são diferentes. Esta sentimos por outra pessoa e aquele tenho quando ovulo. É muito difícil alguém pensar que sou normal. A maioria dos incultos e predadores sexuais pensam que tive alguma desilusão amorosa. Mas isto nunca aconteceu até mesmo porque nunca namorei ninguém para ter alguma desilusão.Faço coisas sozinha como ir ao cinema, passear etc e não fico frustada por isso. Sou bem decidida do que sou e do quero para minha vida. Ah, também não quero ter filhos. Não tenho interesse.

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  6. Olá galera,
    tbm sou assexual e gostaria de formar amizades com outros assexuais, me sinto um pouco sozinho, pois ninguém acredita em mim. Me adicionem no msn por favor: marcosvilela12@gmail.com

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  7. Bom, gente! Primeiro ponto, acredito que o termo correto eh assexual e nao assexuado(a).
    Segundo, tambem tenho a mesma orientacao de voces, nunca me envolvi sexualmente com niguem e nao tenho vontade alguma que isso ocorra, sindo sim, repulsa.
    Tenho 28 anos, nao sinto atracao nem por homens, nem por mulheres, nem por coisa alguma. Nunca sofri nenhum trauma, e tampouco tenho qualquer disfuncao hormonal. Nao gosto de muito contato fisico com niguem, abracos, beijos, nada. Mas gosto de contato humano, o que afasta a misantropia, gosto de conversar, me relacionar (embora nao fisicamente) e tenho medo de ficar sozinha. Em geral nao sofro com minha condicao, a falta de sexo nao me traz angustia, embora nao seja nada confortavel ter que esconder isso das pessoas que, se soubessem, certamente ou nao acreditariam em mim, ou me achariam que sou lesbica ou um aberracao qualquer. Enfim, sou feliz, apenas sinto falta de conversar sobre isso com alguem que realmente me entenda.

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  8. Olá, Gostei muito de encontrar voces, num blog sobre o assunto da assexualidade, tenho mais de 50 anos, mulher, independente, tive até 02 filhos e vivia "correndo " atrás " de um companheiro, porque para muitos, mulher que vive sózinha é um bicho estranho. Há tres anos meu compnaheiro morreu,desde então não faço sexo e me sinto muito melhor, na verdade eu nunca gostei nem mesmo de masturbação, aceitava fazer só para não ficar sózinha.

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  9. Olá,
    parabéns por disponibilizar este espaço e informações.
    Eu me sinto de maneira simimlar, mas sempre achei que havia algo errado comigo.
    Esta é a primeira vez que vejo que o que eu sinto não é aberração.
    Obrigada.

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  10. oi, boa tarde, e eu que pensava que era um bicho raro, não tenho sexo faz mais de 14 anos, não quero, nem preciso sexo, está muito pouco difundida esta opção sexual, sou casada e tenho filhos, mas cada vez que tinha que ter uma relação, meu Deus, não gostava, até que abrí o jogo e me sinto muito bem assim, é uma atitude corajosa mas vale a pena...

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