domingo, 30 de janeiro de 2011

Os primórdios da pesquisa científica sobre assexualidade


Durante os anos de 1940 e 1950, o biólogo norteamericano Alfred Kinsey, em seus famosos e polêmicos estudos sobre as práticas sexuais da população dos Estados Unidos, apurou que aproximadamente 1% dos entrevistados não sentia atração sexual, nem manifestava nenhum interesse pela atividade sexual. No entanto, Kinsey, mais preocupado com os 99% que eram efetivamente ativos sexualmente, não explorou em profundidade essa minoria de 1%. Esta é a primeira pista que temos sobre a prevalência da assexualidade entre os humanos. O avanço no conhecimento sobre assexualidade só ocorreria décadas depois. Os Estados Unidos, contudo, tornou-se o país pioneiro e mais importante a desenvolver as escassas pesquisas existentes sobre assexualidade feitas após Kinsey.

Antes de prosseguir falando de algumas dessas pesquisas, gostaria de enfatizar que desde os primórdios da chamada “sexologia”, em especial nos Estados Unidos, a produção de conhecimento sobre sexualidade foi apropriada pela medicina e pela psicologia. Esse fato é importantíssimo para compreender a patologização dos comportamentos considerados “anormais” em matéria de sexo. Primeiramente, temos Kinsey, biólogo, como pioneiro desses estudos. Mais tarde, o casal Masters & Johnson (ginecologista e psicóloga, respectivamente) realizou pesquisas de laboratório, buscando conhecer a resposta sexual de casais durante a atividade sexual. A perspectiva biológica do sexo, tão enfatizada pela medicina, acaba por obscurecer outras possibilidades de abordagem que poderiam auxiliar na compreensão de tema tão complexo.

A medicalização da sexualidade é um fato que tem sido observado ao longo da história, sobretudo a partir do século XX. Um exercício bastante útil seria questionar os postulados da medicina sobre a sexualidade, por exemplo, a premissa de que toda falta de desejo sexual é necessariamente um distúrbio, a premissa de que a atividade sexual é imprescindível para a saúde, entre muitas outras. Quanto mais se afirma que o sexo é indispensável para a saúde, mais os assexuais são confinados a um espaço de doença e desvio.

Não será surpresa para o leitor saber que quase 100% das pesquisas sobre assexualidade desenvolvidas nos Estados Unidos estão sendo conduzidas por psicólogos, biólogos e psiquiatras. Isso imprime uma característica muito específica a estas pesquisas. Parte delas busca construir hipóteses para as causas biológicas ou psicológicas da assexualidade. Ainda são poucos os artigos que tentam ir além das causas, e ouvir o que tem a dizer os sujeitos assexuais sobre sua orientação. Neste sentido, espero que minha pesquisa, que parte de uma perspectiva sociológica, possa colaborar para trazer uma faceta diferente da assexualidade.

Conforme disse no post anterior, a história da assexualidade (quando alguém conseguir contá-la!) pode ser dividida, desde já, em antes e depois da criação da AVEN (Asexual Visibility and Education Network), em 2001. A AVEN impulsionou a investigação sobre assexualidade nos Estados Unidos, servindo como fonte primária de informações, bem como centro de recrutamento de assexuais para participação nos estudos. Não podemos perder isso de vista. Não se pode simplesmente estender os resultados de tais pesquisas, feitas no contexto norteamericano da AVEN, ao restante da população assexual do mundo. Elas nos ajudam a pensar a assexualidade, mas não constituem verdades absolutas e imutáveis sobre a população assexual.

Vou passar de forma mais rápida pelos trabalhos realizados antes da AVEN, detendo-me nos próximos posts com mais profundidade nas pesquisas pós-AVEN, lembrando sempre que todos os trabalhos que tratam a falta de desejo como patologia estão excluídos de minha análise.

Utilizando dados obtidos em cartas escritas por mulheres aos editoriais de revistas femininas dos anos 1970, Myra Johnson publicou em 1977 o capítulo intitulado Mulheres assexuais e autoeróticas: dois grupos invisíveis num livro sobre sexualidades oprimidas. Para a autora, mulheres assexuais são aquelas que não sentem atração sexual e não praticam a masturbação; aquelas que praticam a masturbação, mas não sentem atração sexual direcionada a parceiros ou parceiras, são denominadas por ela como autoeróticas. Este parece ser o mais antigo trabalho que se tem notícia a tratar a falta de atração sexual fora do contexto da disfunção sexual e a empregar os termos asexuality e asexual para definir a ausência de atração sexual e os indivíduos que se enquadram nessa condição, respectivamente.

Anos mais tarde, dois artigos sobre orientação do desejo sexual e identidade sexual escritos por Shively, De Cecco e Storms apresentam a assexualidade como experiência de parte dos sujeitos pesquisados. Em 1983, Nurius empreende um levantamento que visa quantificar e caracterizar jovens universitários em relação à sua orientação sexual, concluindo que certa parte dos indivíduos pesquisados revelou baixos níveis de atividade sexual e desejo sexual por qualquer dos sexos. Em 1990, Berkey, Perelman-Hall & Kurdek publicam um artigo propondo uma escala multidimensional da sexualidade, incluindo a assexualidade como uma das orientações sexuais possíveis.

Três anos depois, Rothblum & Brehony publicam um livro de ensaios e histórias pessoais tendo como foco relações afetivas e estáveis entre mulheres lésbicas, que excluem o sexo de suas práticas, levando ao questionamento do postulado de que a atividade sexual teria necessariamente lugar privilegiado e indispensável na formação e manutenção de relacionamentos íntimos e duradouros. O livro levanta questões interessantes sobre o papel do sexo nos relacionamentos afetivos.

Estes foram os principais trabalhos que lançaram as bases para o estudo da assexualidade que emergiria nos anos 2000. Todos os trabalhos vêm da psicologia e áreas correlatas. No próximo post, estarei apresentando as pesquisas feitas após a criação da AVEN. Até lá.

TRABALHOS CITADOS

BERKEY, B. R.; PERELMAN-HALL, T.; KURDEK, L. A. The multidimentional scale of sexuality. Journal of Homosexuality, vol. 19 (4), 1990, p. 67-87

JOHNSON, Myra T. Asexual and Autoerotic Women: two Invisible Groups. In: Gochros, H.L.; J.S. Gochros (eds.). The Sexually Oppressed. Associated Press, 1977

KINSEY, Alfred C. Sexual Behavior in the Human Male, W.B. Saunders, 1948

KINSEY, Alfred C. Sexual Behavior in the Human Female, W.B. Saunders, 1953

NURIUS. P. S. Mental Health implications of sexual orientation. The Journal of Sex Research, Vol 19, No. 2, 1983, p. 119-136

ROTHBLUM, E., BREHONY, K. Boston Marriages: romantic but asexual relationships among contemporary lesbians. Amherst: University of Massachussetas Press.

SHIVELY, M. G.; DE CECCO, J. P. Components of sexual identity. Journal of Homosexuality, Vol. 3 (1), 1977, p. 41-48

2 comentários:

  1. Oi Elisabete!
    Sou graduanda de psicologia na UnB e tenho me interessado em estudar a assexualidade a partir da perspectiva da psicologia social. Estou gostando muito dos esclarecimentos que você faz aqui, além da visibilidade da assexualidade longe de patologias. Gostaria de, se possível, conhecer algumas outras referências que você esteja usando. Meu email é nanda.sduarte@gmail.com

    Abraço,
    Fernanda.

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  2. Olá... pois bem eu possuo um arquivo e gostaria de compartilhar de minha teoria e meu pensamento em relação a isso, se possível gostaria de manter este contato.
    ct_ameu@hotmail.com ou ameu14@gmail.com
    Obrigado.

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