domingo, 27 de fevereiro de 2011

Os prazeres da assexualidade


Retomando nossa linha de raciocínio desenvolvida nas postagens anteriores, vimos que a assexualidade, definida como orientação das pessoas que não sentem atração sexual, vem conquistando certa visibilidade a partir do surgimento das redes sociais na internet no início do século XXI. Vimos também que essa nova visibilidade vem desafiando estudiosos a desenvolver pesquisas que ajudem a compreender as diferentes experiências que compõem o espectro da assexualidade. Dissemos também que a importância de alguns trabalhos científicos sobre a falta de desejo/atração sexual, publicados antes do surgimento das grandes comunidades virtuais de assexuais, reside no fato de que tais trabalhos tratam do tema fora do contexto da patologia, o que é um grande avanço. Portanto, constituem bases fundamentais para os estudos que viriam a seguir. Estaremos falando sobre alguns desses trabalhos nesta e nas próximas postagens.
A maioria dos pesquisadores que estuda a assexualidade hoje nos Estados Unidos é de psicólogos e médicos; recentemente, no entanto, alguns trabalhos têm emergido da área de sociologia, lingüística e da área dos estudos feministas, os quais têm trazido importantes contribuições. Do mesmo modo, pesquisadores de outros países começam a divulgar novas pesquisas em andamento. Faço parte de uma crescente rede internacional de pesquisadores sobre assexualidade, da qual fazem parte pesquisadores dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Sérvia e Brasil, por enquanto.
Hoje vou falar sobre o capítulo de um livro que acabou de ser publicado nos Estados Unidos. O título do livro é Against Health: how health became the new morality (Contra a saúde: como a saúde tornou-se a nova moralidade), organizado por Jonathan M. Metzl e Anna Kirkland. A premissa desse livro é interessantíssima: por meio de vários artigos escritos por diferentes pesquisadores, os autores tentam mostrar como a profissão médica e a indústria farmacêutica, para defender seus interesses, ditam de que modo as pessoas devem viver, usando a saúde como justificativa para determinados comportamentos. Um dos capítulos fala sobre a patologização da gordura; outro fala sobre a demonização do fumo, outro, sobre a defesa da amamentação, e assim por diante. A profissão médica determina o que é ou não “normal” no comportamento humano. Nesta perspectiva, estar acima do peso é ruim para a saúde; fumar faz mal para a saúde; privar-se de atividade sexual faz mal para a saúde, assim como não amamentar os bebês. Tudo em nome da saúde!
No campo da sexualidade, a medicina, em especial a psiquiatria, tratou de categorizar transtornos sexuais, criando assim, o que é considerado normal ou anormal em matéria de sexualidade. Against Health traz um capítulo sobre a assexualidade intitulado How much sex is healthy? The pleasures of asexuality (Que quantidade de sexo é considerada saudável? Os prazeres da assexualidade), da psicóloga Eunjung Kim, professora da Universidade de Wisconsin. Embora a autora seja psicóloga, o enfoque o texto é sociológico. A pesquisadora mostra como a medicalização da sexualidade acaba por situar a assexualidade na categoria de transtorno e doença. Essa associação inseparável entre saúde e atividade sexual, proclamada pelos profissionais de saúde, reforça a idéia de que o desejo/atração sexual é universal, todo mundo tem que sentir, quem não sente está doente. Que efeito esse discurso produz sobre a visão que as pessoas têm dos assexuais?
O argumento da autora é de que as explicações médicas sobre a assexualidade, que a consideram uma anormalidade que precisa ser tratada, constituem grande parte da estigmatização e da marginalização sofridas pelas pessoas assexuais. Paradoxalmente, os ativistas assexuais norteamericanos, para se defender desse postulado da medicina (de que a atividade sexual é essencial para a saúde), argumentam que são saudáveis, apesar de não fazerem sexo. Para a pesquisadora, esse contra-argumento situa o debate no binômio saúde/doença, e isso limita de forma significativa nossa compreensão sobre a assexualidade. Para a Dra. Kim, não se pode combater a estigmatização da assexualidade com os mesmos argumentos que a área de saúde utiliza, pois a sexualidade não se esgota no plano biológico do indivíduo.
Para ilustrar a abordagem da mídia sobre a assexualidade, a Dra. Kim faz a análise de um documentário e de um filme que abordam o tema de forma totalmente diferente. O documentário (Under the hood), produzido pelo Discovery Channel Canadá, faz a apresentação da assexualidade entrevistando pessoas na rua, perguntando-lhes se é possível alguém viver sem desejo/atração sexual. As respostas dos entrevistados revelam o consenso de que o desejo sexual é bom, necessário e indispensável. Mais adiante, o documentário entrevista assexuais, sempre sobrepondo suas falas com imagens de casais felizes na cama, contrastando com imagens de indivíduos infelizes sozinhos. O documentário explora as explicações médicas para a falta de desejo/atração sexual, todas sugerindo haver algum problema de ordem médica ou psicológica com os assexuais, tais como deficiência hormonal, abuso sexual, depressão, tendências suicidas, etc. No final, o documentário apresenta a busca pela cura médica da assexualidade num centro médico de Chicago. Este centro recomenda às mulheres que não querem fazer sexo com seus maridos que façam, mesmo sem querer, e considerem que estão dando um presente a seus parceiros. Kim conclui que a abordagem da assexualidade proposta por Under the Hood é negativa e patologizada, desqualificando as falas dos assexuais sobre sua própria orientação.
Em seguida, a Dra Kim analisa um filme que trata a assexualidade fora do contexto médico. O título do filme é Snow Cake (Bolo de Neve), estrelado por Sigourney Weaver, Alan Rickman e Carrie-Anne Moss. A personagem de Sigourney Weaver (Linda) é autista e assexual. O personagem de Alan Rickman (Alex) é um homem de meia idade em crise que dá uma carona a uma adolescente, filha de Linda. Após um acidente que mata a jovem, Alex vai comunicar sua morte à mãe da garota, a qual não manifesta nenhuma tristeza pelo ocorrido. Desconcertado com a reação da mãe, Alex conversa com a vizinha desta (Maggie, interpretada por Carrie-Anne Moss), a qual conta a ele que Linda é autista, portanto, seus sentimentos e reações são diferentes daqueles das pessoas consideradas “normais.” Ninguém parece saber com certeza quais foram as circunstâncias da gravidez de Linda, já que ela é assexual e não mantém relacionamentos amorosos.
Alex resolve ficar por perto para ajudar Linda a compreender a morte de sua filha, e acaba se envolvendo sexualmente com a vizinha Maggie. O diretor usa a sensualidade de Maggie como contraponto à assexualidade de Linda, sem julgamentos, sem tomar partidos sobre quem é mais feliz. Linda diz a Alex que o maior prazer de sua vida é comer neve, afirmando que o prazer de comer neve supera o prazer de um orgasmo (pelo menos a idéia que ela tem do que seja um orgasmo, descrito por sua filha). No fim do filme, Alex prepara um “bolo de neve”, que deixa como presente de despedida para Linda.
Embora a palavra assexualidade jamais seja dita no filme (a assexualidade pode estar associada ou não ao autismo de Linda), a Dra. Kim afirma ser este filme um belíssimo exemplo do enfoque da assexualidade totalmente fora do contexto médico e dentro de uma perspectiva mais natural e menos crítica.
Finalizando, o artigo da Dra. Kim traz uma reflexão lúcida e abrangente sobre a medicalização da sexualidade e suas consequências para a assexualidade, bem como uma análise muito competente das representações de assexualidade veiculadas pela mídia no mundo anglo-saxão.  Até a próxima!
Texto Comentado
KIM, E. How much sex is healthy? The pleasures of asexuality. In: METZL, J. KIRKLAND, A. Against Health: how health became the new morality. New York: New York University Press, 2010

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