quarta-feira, 23 de março de 2011

Na trilha de uma definição de assexualidade

Conforme dito em postagens anteriores, o conhecimento construído sobre a assexualidade vem, em primeiro lugar, dos próprios assexuais, sobretudo membros de comunidades de assexuais como a AVEN (Asexual Visibility and Education Network), os quais, a partir da troca de experiências, sistematizaram conhecimentos importantes. Em segundo lugar, conhecimentos teóricos foram produzidos por pesquisadores da área de psicologia, psiquiatria, medicina e outras, principalmente dos Estados Unidos, a partir do estudo das comunidades de assexuais e de seus membros. É impossível falar de assexualidade sem falar das comunidades de assexuais na internet, pois pouco sabíamos sobre a existência da assexualidade antes do surgimento das comunidades virtuais e redes sociais.


Hoje vou falar sobre um texto intitulado Asexuality: the history of a definition (Assexualidade: a história de uma definição) escrito por Andrew Hinderliter, que é um jovem membro da AVEN, aluno de doutorado de uma universidade norte-americana. Hinderliter fez uma pesquisa na própria internet para tentar recuperar a história das comunidades, com o objetivo de traçar a história da definição de assexualidade, desde seus primórdios até a definição proposta pela AVEN. Apesar de ser uma história com muitas lacunas, o esforço de Hinderliter resultou em um texto muito competente, repleto de informações relevantes. Vou citar apenas os achados mais significativos do pesquisador, considerando que o artigo é muito longo e minucioso.

Falar em definição significa falar em discordância. Não existe definição capaz de englobar todas as possibilidades do objeto definido. Com a assexualidade não é diferente, a definição ainda está sendo construída. Mesmo entre os pesquisadores, não há consenso; cada trabalho publicado divulga uma definição diferente, sendo que muitos assexuais não se vêem representados pelas definições propostas. Alguns definem a assexualidade a partir do comportamento sexual; outros, a partir da autoidentificação; outros, a partir da falta de desejo ou atração, e assim por diante. Existem definições que buscam ampliar o espectro para incluir aqueles que não sentem atração sexual, mas praticam a masturbação, por exemplo. Outras definições buscam restringir o conceito para que seja enfatizada a diferença entre assexualidade e celibato, por exemplo. E por aí vai.

Usando como fontes o site da AVEN, bem como podcasts gravados pelo fundador da AVEN, David Jay, o pesquisador Hinderliter apurou que ao longo dos anos 1990, em fóruns sobre sexualidade, era possível localizar algumas menções à assexualidade feitas por sujeitos que se identificavam como assexuais. Porém, na época, essas mensagens eram isoladas, não havia comunicação entre os assexuais para troca de informações e experiências.

Em 1997, foi publicado na internet um artigo denominado My life as an Amoeba (Minha vida de ameba, que adotei como título de minha pesquisa). Como havia um campo disponibilizado para comentários neste artigo, logo, assexuais de diferentes localidades passaram a expressar seus sentimentos sobre assexualidade nesse campo. Ainda que de forma rudimentar e não intencional, pode-se dizer que Minha vida de Ameba constitui a comunidade mais antiga construída em torno da identidade assexual (ainda que não tivesse as características das comunidades de hoje).

No ano 2000, formou-se um grupo denominado Haven for the Human Amoeba (Refúgio da Ameba Humana). Em resposta a uma pergunta de um usuário sobre a definição de assexualidade, o criador da comunidade respondeu que assexualidade é não sentir atração sexual por homem ou mulher (ou cavalos, gatos, cachorros ou qualquer outra coisa). Hiderliter diz que não está claro se este grupo tinha alguma ligação com o grupo mais antigo criador de Minha vida de Ameba. Mas, aparentemente, a ameba começava a tornar-se o mascote  dos assexuais.
Em 2001, um estudante da Universidade Wesleyan chamado David Jay, que já utilizava a palavra assexual como uma autoidentificação, encontrou a página Minha vida de Ameba na internet. Essa foi a primeira vez que ele via palavra assexual ser utilizada por outras pessoas que não ele mesmo, para referir-se a seres humanos. A partir daí, criou sua própria página virtual a qual chamou AVEN (Asexual Visibility Education Network), que viria a se tornar a maior comunidade de assexuais do mundo. A AVEN inicial trazia apenas uma breve definição de assexual, bem como o e-mail de Jay para contato.

Segundo Hinderliter, a definição original da AVEN dizia que assexual era “pessoa que não sente atração por nenhum dos gêneros”. Note-se que aqui ainda não se fala de atração sexual, mas de atração. David Jay divulgou sua página entre grupos LGBT nas universidades norte-americanas, esperando encontrar outros assexuais. Um deles escreveu para ele sugerindo uma mudança na definição, pois “nenhum dos gêneros” sugere binarismos como homem/mulher, masculino/feminino, desconsiderando outras possibilidades dentro do espectro, como transexuais e travestis, por exemplo. Portanto, Jay alterou a definição retirando o binarismo.

Ainda em 2001, Jay juntou-se ao grupo Refúgio da Ameba Humana, que estava construindo uma rede de sites sobre assexualidade. A partir desse diálogo, foram surgindo outras questões, como por exemplo: desejo sexual é a mesma coisa que atração sexual? Essa pergunta surgiu quando percebeu-se que havia pessoas que se identificavam como assexuais e praticavam a masturbação e outras não praticavam. Será que todos poderiam ser considerados assexuais? Nesse ponto, sempre a partir da troca de experiências, concluíram que o desejo sexual pode ser autodirecionado, ou não ter direção clara; já a atração sexual é necessariamente direcionada a outra pessoa. E o que todos os assexuais têm em comum é o fato de não sentirem atração sexual por outras pessoas. Portanto, a definição de assexual passou a ser “pessoa que não sente atração sexual”, aqui já entendendo que só se sente atração por outros, tornando desnecessária a expressão “por outras pessoas”. O adjetivo sexual é fundamental nesta nova definição, para que não se confunda com outros tipos de atração (emocional, intelectual, afetiva, etc.)

Mesmo assim, os assexuais que participavam dessas discussões concluíram que nenhuma definição única poderia incluir todos os assexuais. Muitas pessoas se identificam como assexuais por não sentirem nenhuma identificação com a sexualidade presente na sociedade. Portanto, de certa forma, assexual é todo aquele que se identifica como tal (a propósito, esta é a definição que estou utilizando na minha pesquisa), considerando que as pessoas podem ter motivos diferentes para se identificar como assexuais. Mesmo concordando que não existe uma única definição que represente as experiências de todos os assexuais, os membros das comunidades reconheciam a necessidade de se estabelecer uma definição geral, para que pudesse ser utilizada para fins de visibilidade política do movimento.

Outro importante site que abriga uma considerável população sexual na internet é a Comunidade Assexual do LiveJournal, fundada em 2002. Esta comunidade traz em sua página oficial o seguinte texto: Esta é uma comunidade para pessoas assexuais discutirem a vida sem sexualidade. Damos as boas vindas a qualquer um com pouca ou nenhuma atração por outrem, também pessoas com baixa libido ou nenhuma libido. Embora não haja aqui uma definição formal, esta mensagem traz algumas pistas sobre a definição de assexualidade para esta comunidade.

Retomando a definição da AVEN, assexual é a pessoa que não sente atração sexual. O fato de a AVEN ter se tornado a maior comunidade de assexuais do mundo reforça a importância política de sua definição, embora ela não abarque toda a experiência assexual. Na própria comunidade existem pessoas que não concordam inteiramente com esta definição, outras, apresentam suas próprias definições. Um dos problemas que a definição da AVEN apresenta é que não inclui, por exemplo, os Gray-A, que são pessoas que se sentem confortáveis em se identificar como assexuais, porém, raramente e em circunstâncias muito específicas, podem sentir atração sexual por outra pessoa. Ou os demissexuais, que são pessoas que só sentem atração sexual quando existe atração romântica, ou envolvimento emocional, o que pode ser raro, mas acontece.

Aos que puderem, recomendo a leitura do texto completo de Hinderliter, pois trata-se de um trabalho de garimpagem, reflexão e rigor analítico importante para quem deseja compreender a assexualidade em suas diferentes nuances.

TEXTO COMENTADO
Hinderliter, Andrew. Asexuality: the history of a definition. Disponível no site Asexual Explorations: http://www.asexualexplorations.net/home/defining_asexuality.html

Nota: Muito obrigada a todos os leitores por prestigiarem este trabalho, pois ele é feito para vocês. Agradeço profundamente àqueles que deixam seus comentários no Blog, ou que me mandam e-mails, incentivando a realização desta pesquisa. Para os que quiserem anotar, meu e-mail de contato é elisabete.regina.oliveira@usp.br


4 comentários:

  1. Assexual arromântico24 de março de 2011 07:33

    Olá Elisabete,

    Ao meu ver, o grande problema da assexualidade é que ela engloba uma gama de pessoas tão diferentes entre si que acaba perdendo um pouco de seriedade como orientação sexual frente a sociedade e até mesmo frente a alguns profissionais da psicologia, por exemplo.

    Um assexual que diz sentir atração sexual por algum gênero [conforme li na AVEN, há algum tempo], mas não tem vontade de expressar sua sexualidade com outra pessoa tem realmente a mesma orientação sexual de quem nunca experimentou esta atração?

    Se a heterossexualidade e a homossexualidade, por exemplo, são imutáveis, ou seja, são parte intrínseca de cada indivíduo, é possível uma transitoriedade entre a assexualidade e outras orientações sexuais, também conforme visto em alguns relatos de comunidades assexuais? Sendo assim, seria a assexualidade uma orientação sexual ou um estado de espírito?

    Não quero inventar uma definição radical para a assexualidade, apenas gostaria de dizer que não creio que um dia ela será levada a sério se englobar pessoas com características tão diferentes entre si que quase qualquer um possa tecnicamente se definir assim. A homossexualidade hoje só é reconhecida como uma sexualidade porque teve uma definição simples: a atração sexual por alguém do mesmo sexo.

    E quanto a assexualidade? Será que todos os membros de comunidades de assexuais realmente não sentem atração sexual ou estão apenas à procura de um "refúgio" contra turbulências em sua sexualidade?

    Obrigado.

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  2. Olá Bete, adorei o texto! Parabéns pelo belíssimo trabalho de pesquisa que desenvolves! Bj

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  3. Ótimo referência, vou dar uma lida assim que possível.

    Ironicamente publiquei um texto que fala justamente sobre esse problema de definição.

    Dê um lida assim que possível, acho que você vai rir muito.

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  4. Muito bom o blog...
    *bolo* pra todos vocês! :)

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