quarta-feira, 6 de abril de 2011

A assexualidade e as relações amorosas

Hoje faço uma pausa  na apresentação das pesquisas sobre assexualidade pós-AVEN para falar deste livro que acabei de ler, publicado em 1993, precioso demais para ficar fora de nossa discussão. O título é Boston Marriages – Romantic but asexual relationships among contemporary lesbians (Casamentos de Boston, Relacionamentos Românticos, porém, assexuais entre lésbicas contemporâneas). Trata-se de um conjunto de textos divididos em três partes: cinco artigos teóricos, nove relatos pessoais e três painéis de discussão. Os textos foram selecionados e organizados por Esther D. Rothblum e Kathleen A. Brehony, ambas psicólogas.

O termo casamentos de Boston (ou casamentos bostonianos) diz respeito a um tipo de arranjo doméstico comum no nordeste dos Estados Unidos no final do século XIX e início do século XX, no qual duas mulheres sem relação de parentesco dividiam a mesma casa, sem a ajuda financeira de um homem. Essas mulheres em geral permaneciam solteiras, não namoravam, tinham seus empregos e eram independentes, ao contrário da maioria das mulheres dessa época, destinadas ao casamento e ao cuidado com os filhos. Não há registros de que tais arranjos envolvessem relações sexuais. Aparentemente, tratava-se do que eu costumo chamar de amizade romântica, um tipo de amizade que envolve algum tipo de compromisso, já que as mulheres compartilhavam suas vidas, faziam tudo juntas, como se fossem um casal; constituíam, de fato, uma família.

As autoras de Boston Marriages recuperam esta expressão antiga para referir-se a mulheres lésbicas da contemporaneidade, as quais, seja por que motivo for, excluem o sexo de seus relacionamentos. É bom notar que aqui não se está falando de mulheres assexuais, mas de relacionamentos sem sexo. No início da década de 1990, quando o livro foi publicado, ainda não se falava em assexualidade do modo que falamos hoje. Os relatos pessoais ilustram as trajetórias de pessoas da vida real que decidem conscientemente viver sem sexo dentro de um relacionamento amoroso. Descrevem relacionamentos entre lésbicas que são absolutamente iguais a qualquer casamento heterossexual, exceto pelo sexo.

As autoras chamam a atenção para o fato de que quando os heterossexuais se casam, seu relacionamento é definido como casamento até que estejam legalmente divorciados. Não é preciso comprovar que existe atividade sexual para que o relacionamento seja considerado casamento. A sociedade pressupõe que o sexo esteja acontecendo na relação. Mesmo que o casal seja celibatário, ou que tenha relações extra-conjugais, ainda assim é considerado um casamento. No entanto, para outras configurações de relacionamento (lésbicas, homens gays, casais heterossexuais que moram juntos), o relacionamento é definido pela presença de atividade sexual.

Este tipo de definição mostra o quanto o sexo genital tem destaque em nossa sociedade. O sexo tem um peso simbólico enorme, definindo se existe ou não um relacionamento entre duas pessoas. Aqui, chegamos a um ponto importante: a sociedade supõe que todos os casais em um relacionamento mantêm relações sexuais; porém, sendo o sexo algo privado, como ter certeza de que todos os casais fazem sexo? E que importância pode ter para a sociedade o que duas pessoas fazem (ou não fazem) entre quatro paredes?

Prosseguindo, quando um relacionamento romântico não envolve sexo, fica difícil definir seus elementos, não temos nem palavras para definir tais relacionamentos. Não é exatamente amizade, pois há uma afeição diferente da que se sente por um amigo; mas também não é um relacionamento erótico, pois não há o “desejo da carne.” Há o carinho, o respeito, o amor pela alma do outro, a vontade de ficar junto, só não há o desejo pelo sexo genital. A partir dos relatos presentes no livro, percebemos o quanto esses relacionamentos são importantes para estas mulheres, o quanto suas parceiras constituem o centro de suas vidas. O fato de não haver sexo no relacionamento não diminui em nada o compromisso e o amor entre elas. Fica claro que, para estas mulheres, a atividade sexual não constitui o núcleo de sua relação. O carinho, o respeito, a amizade ocupam este lugar.

O livro levanta importantes questões filosóficas sobre a natureza dos relacionamentos em geral. O que é um relacionamento sem sexo? Será que todos os casais fazem sexo? Será que o sexo é realmente indispensável para um relacionamento bem sucedido? O livro convida os leitores a questionar a natureza de sua própria sexualidade, a pensar em diferentes modelos de relacionamentos, antes nunca imaginados.

Trazendo essa discussão para a assexualidade, todos nós temos relacionamentos importantíssimos em nossas vidas sem que haja sexo na equação. Todos temos amigos queridos, familiares adorados e outros tipos de relacionamento que são puramente emocionais, puramente afetivos. Muitos assexuais afirmam que são capazes de manter relacionamentos amorosos sem que haja atividade sexual. Por que é tão difícil para nós acreditar que isso seja possível?  Creio que viver numa sociedade tão sexualizada nos leva ao ceticismo sobre essa possibilidade. Ao ler os relatos contidos neste livro, entramos num mundo totalmente inusitado, desconhecido, mas ao mesmo tempo fascinante e esclarecedor.

Vez por outra vou retornar a este livro aqui no Blog, para aprofundar os temas discutidos nos artigos teóricos, pois estes nos dão pistas relevantes em nossa trilha para compreender a assexualidade e os relacionamentos assexuais.

LIVRO COMENTADO

ROTHBLUM, E. D.; BREHONY, K. A. Boston Marriages – Romantic but asexual relationships among contemporary lesbians. Amherst: The University of Massachussets Press, 1993.
Disponível parcialmente no Google Books:
http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=57qS_nfMdicC&oi=fnd&pg=PA3&dq=boston+marriages&ots=k5DZmx3QwA&sig=DrvKHDkCfx4yaLlNLt9d2q1OXpg#v=onepage&q&f=false

Nota: Agradeço os comentários, e-mails e contribuições que tenho recebido dos leitores. Alguns pontos importantíssimos têm sido levantados, espero que possamos aprender juntos com este diálogo.

Um comentário: