segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Entrevista concedida ao jornal Correio Braziliense

Recentemente concedi uma entrevista sobre assexualidade ao Jornal Correio Braziliense, a qual foi publicada em 14 de agosto de 2011. Como foram publicadas somente algumas falas, por questões de espaço, publico abaixo a entrevista completa, a qual acredito ser de interesse dos leitores deste blog: 



1.      O que é um assexual? Pessoas que se masturbam e tem interesse sexual, embora baixo, podem ser consideradas assexuais? Como uma pessoa que fica excitada - como as que se masturbam - pode ser considerada assexual?

Ainda não há um consenso no meio científico sobre o que seja assexualidade. Trata-se de uma abordagem diferente da falta de desejo/atração sexual, que sempre foi tratada pela ciência como transtorno. As comunidades de assexuais começaram a surgir nos Estados Unidos no começo do século XXI. A principal comunidade, a AVEN (Asexual Visibility and Education Network), desde 2001 vem moldando uma definição de assexualidade, que foi mudando com o tempo, e ainda está sendo construída. A ciência – principalmente a medicina e a psicologia nos EUA - começou a se interessar pela assexualidade principalmente por causa da repercussão do tema em programas de televisão norte-americanos. Entre 2006 e 2007, os assexuais da AVEN estiveram em pelo menos 5 programas de televisão de grande audiência nos EUA. Isso impulsionou o interesse de pesquisadores acadêmicos nessa nova abordagem da falta de desejo e/ou atração sexual. O que os assexuais da AVEN reivindicam é que a assexualidade seja considerada orientação sexual, tão legítima quanto a heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade, não como transtorno sexual A definição de assexual proposta pela AVEN, atualmente, é alguém que não sente atração sexual. Mas é importante ressaltar que essa não é a única definição o possível. Uma vez que não existe uma definição “oficial” do que seja assexualidade, também não há um consenso sobre quem pode ser considerado assexual ou não. Na AVEN, por exemplo, não há nenhum impedimento para que uma pessoa que se masturba se considere assexual, desde que ela não tenha atração sexual direcionada a outra pessoa. Não há nada de errado com o corpo da pessoa que se identifica como assexual; o corpo tem as mesmas respostas de qualquer outra pessoa. Só que, quando essa resposta existe, ela é autodirecionada, não está associada ao sexo com parceiro. É bom lembrar que a definição proposta pela AVEN fala em atração sexual. A palavra atração pressupõe o direcionamento do desejo para outra pessoa. Como a masturbação sempre foi vista como uma forma primária, infantil, imatura e incompleta de sexualidade, é difícil para nós percebermos a masturbação como um fim em si mesma. Costumamos ver a masturbação como algo que deve necessariamente evoluir para o sexo com parceiro. Isso não acontece com os assexuais que se masturbam. Eles descrevem essa experiência como uma liberação de stress, ato mecânico, sem fantasias, apesar de ser prazeroso para alguns. Existem assexuais que não sentem a necessidade da masturbação. Outra coisa importante a ressaltar é que assexualidade nada tem a ver com moralidade ou religiosidade (que muitas vezes leva as pessoas ao celibato). A assexualidade tem sido associada à falta de atração sexual, não com o comportamento sexual. Não é o que a pessoa faz, mas o que ela sente.

2.      Existe mais de um tipo de assexual? Li que antigamente a AVEN usava uma classificação que os separava em A, B, C e D.

A AVEN propõe algumas classificações. É importante ressaltar que o conhecimento que temos hoje sobre assexualidade foi construído na troca de experiências entre os assexuais nas comunidades virtuais, sobretudo a AVEN. Até mesmo os cientistas que começam estudar a assexualidade, partem sempre a partir do conhecimento já construído pela AVEN. Segundo a AVEN, existem assexuais que se masturbam, outros que não se masturbam. Existem assexuais que não sentem atração romântica por ninguém, ou seja, não se apaixonam e não buscam parceria romântica. Por outro lado, existem aqueles que desejam uma parceria romântica (sem sexo). Aqueles que buscam parceria romântica podem buscar essa parceria em pessoas do mesmo sexo, ou de sexo diferente, ou o sexo da pessoa amada pode ser indiferente, tanto faz. Portanto, um assexual pode ser também gay, lésbica. A AVEN classifica esses assexuais como heterorromântico, homorromântico ou birromântico. É importante frisar que esses relacionamentos não incluem atração sexual por parte do assexual. Porém, é possível que um assexual esteja num relacionamento com alguém que não seja assexual. Nesse caso, o assexual pode concordar em fazer sexo para agradar e satisfazer seu parceiro; ou então, pode manter com o parceiro uma relação romântica, liberando-o para relações sexuais com outras pessoas. A AVEN afirma também que existem indivíduos que se consideram assexuais, porém, muito raramente, podem vir a sentir atração sexual por uma pessoa com a qual estejam emocionalmente e romanticamente envolvidos. Chamam esses indivíduos de demissexuais (estariam no meio do caminho entre a sexualidade e a assexualidade). Um sujeito demissexual pode se identificar como assexual. Entre a assexualidade e a sexualidade existe uma área cinza, na qual podem se situar sujeitos que sintam atração sexual em situações muito específicas. Esses são chamados de Gray-A.
A AVEN também faz questão de enfatizar que assexualidade não é celibato. Celibato é uma escolha (a pessoa decide conscientemente a não manter relacionamentos sexuais/amorosos). Segundo a AVEN, a assexualidade não é uma escolha, mas uma forma de ser. Como comecei a estudar a assexualidade há pouco tempo, desconheço detalhes dessa classificação que você apontou.

3.      Algumas pessoas dizem que a medida para saber se o tratamento com um especialista é válido ou não, é o incômodo que a pessoa sente ou não sendo assexual. Os assexuais dizem que, se nada está quebrado, não o que ser concertado. O que você acha?

Uma das grandes premissas em sexualidade é de que o desejo sexual é biológico e universal, ou seja, todas as pessoas, de todas as culturas, de todas as épocas têm que sentir desejo, caso contrário, são necessariamente portadoras de um transtorno. Aliado a isso, temos um grande mercado da sexualidade, que nos impõe padrões de comportamento e desejo, que, quando não alcançados, nos transformam em portadores de transtorno.
Vale lembrar que nem toda falta de desejo/atração sexual é necessariamente assexualidade, assim como nem toda falta de desejo/atração sexual é necessariamente um transtorno. Até hoje a ciência tem tratado toda falta de desejo/atração sexual como doença que precisa necessariamente ser curada. Como existem pessoas que afirmam não sentir atração sexual sem que isso constitua nenhuma angústia, é necessário que a ciência comece a rever seus conceitos. Se uma pessoa sentiu desejo a vida toda e, de repente, para de sentir, é provável que haja realmente algum problema físico ou psicológico, um problema que requer tratamento, principalmente se traz infelicidade à pessoa. Mas se uma pessoa que não tem nenhum problema físico ou psicológico, mesmo assim não tem nenhum interesse por sexo e vive feliz assim, não há motivos para classificá-la como portadora de transtorno, em minha opinião.

4.      Que possíveis causas podem levar à falta de interesse sexual? Como, depressão, por exemplo?

São muitas as causas que podem levar à falta de interesse por sexo, a literatura médica e psicológica tem numerosos estudos de caso a respeito. Uma pessoa pode ter tido uma experiência traumática, pode ter um desequilíbrio hormonal, pode ter algum transtorno mental, depressão, ansiedade, stress, as causas podem ser inúmeras. Se a pessoa se sente infeliz por não sentir desejo, deve procurar ajuda e tratamento. Nesses casos, normalmente a falta de desejo não é um sintoma isolado, mas é conseqüência de um conjunto de outros sintomas que devem ser estudados e tratados. Se a falta de desejo é isolada e não causa nenhum desconforto ou infelicidade à pessoa, a assexualidade deve ser considerada como uma possibilidade. Os sujeitos assexuais, nas comunidades virtuais, relatam sua felicidade ao descobrir que existem outras pessoas como eles. Eram infelizes quando se sentiam “alienígenas, esquisitos, diferentes dos demais” na sociedade; mas sentem-se aliviados quando descobrem que não estão sozinhos, que a assexualidade é uma possibilidade de orientação sexual. Ainda não se tem certeza, mas pelo menos duas pesquisas calculam que os assexuais compõem 1% da população, a minoria das minorias. Os assexuais, portanto, vivem num isolamento demográfico e geográfico, dificilmente convivendo com outros como eles. Somente as comunidades virtuais podem fornecer um meio de comunicação que pode se constituir em base identitária para essa população. Enquanto os homossexuais têm bastante visibilidade na sociedade e na cultura, o mesmo não ocorre com a assexualidade. Um adolescente que não se identifica com as sexualidades presentes na sociedade, não tem em quem se mirar, nem sabe que a assexualidade existe, não tem com quem conversar a respeito, fica em total solidão. Isso pode levar esse adolescente a um quadro depressivo, uma sensação de não adequação à sociedade. E aí, pode-se inverter a compreensão do problema, pode-se pensar que ele não sente desejo porque tem depressão, quando é exatamente o contrário: ele tem depressão porque se sente incapaz de ser aquilo que se espera dele, por não compreender porque é diferente das outras pessoas.

5.      Assexualidade pode surgir já na maturidade? Por exemplo, você tem um casamento feliz e normal, até que um dia, perde o interesse, ou é algo vivenciado desde a infância?

Ainda estamos aprendendo sobre a assexualidade. Existem pouquíssimos estudos (o total de artigos não chega a 20, todos no exterior, ainda não há livros sobre o assunto) São comuns os relatos de assexuais que afirmam que sempre se sentiram diferentes, nunca se identificaram com a sexualidade presente na sociedade. Mas muitos deles levaram uma vida bastante convencional, namoraram, casaram, tiveram filhos. Como eu disse, não é o comportamento que determina a assexualidade, mas a falta de desejo e/ou atração sexual. Da mesma forma, existem homossexuais que se comportam como heterossexuais a vida toda, namoram, casam-se, têm filhos. Mas isso não faz deles heterossexuais; eles simplesmente agem dessa forma porque é o que a sociedade espera deles. Alguns homossexuais jamais sairão do armário, por diversos motivos; outros, pode ser que depois de 40 anos de casados, resolvam assumir sua homossexualidade. A mesma coisa ocorre com os assexuais, eles podem estar em relacionamentos convencionais, sem saber que a assexualidade é uma possibilidade que poderia explicar o que eles sentem. Outros pensam que tem um transtorno sexual, alguns até podem buscar tratamento. Na perspectiva da orientação sexual, a AVEN parece defender a idéia de que pessoas assexuais sempre foram assexuais, assim como heterossexuais sempre foram heterossexuais e homossexuais sempre foram homossexuais. Parecem acreditar que a orientação sexual é imutável. Eu não acredito que a explicação seja assim tão simples.

6.      Há mais mulheres que se dizem assexuais do que homens? Por que isso ocorre? Pode estar relacionado à criação que as mulheres recebem, por exemplo? Porque homens costumam ser educados para máquinas do sexo...

Não temos estatísticas confiáveis sobre esses números. Os poucos dados que temos vêm da AVEN, que de vez em quando faz pesquisa entre seus membros. Os números apurados por eles são representativos apenas da comunidade. Temos que considerar que existem milhares de assexuais que não têm acesso à internet, milhares que nem sabem que a assexualidade existe, milhares que não se identificam como assexuais. Portanto, não dá para afirmar com certeza que existem mais mulheres assexuais do que homens assexuais, pois não há levantamentos com rigor científico. Mas, como você muito bem colocou, é possível que haja mais mulheres que se identificam como assexuais do que homens com a mesma autoidentificação, pelo menos nas comunidades. É bem provável que haja um viés de gênero nessa estatística informal, pelos motivos que você apontou.

7.      É mais fácil ser um assexual do que ser um gay, por exemplo? O pesquisador Anthony Bogaert diz  (me corrija se eu estiver falando besteira!) que eles são quase que invisíveis porque seu comportamento não choca tanto a sociedade, já alguns dizem que não gostar de sexo numa sociedade que respira sexo é bastante difícil.

Para responder esta pergunta é necessário destacar duas coisas importantes. A primeira, é que nossos relacionamentos sexuais são privados (embora as pessoas de fora possam supor que determinado casal têm relações sexuais, não pode ter certeza, pois as relações são privadas); mas nossos relacionamentos afetivos são públicos (as pessoas próximas sabem se você está namorando e com quem, mesmo as que não são próximas sabem reconhecer um casal apaixonado). A segunda, é que existem assexuais que são gays. Quando um assexual gay estiver namorando alguém do mesmo sexo, apesar de ser um relacionamento sem sexo, ninguém sabe disso, as pessoas que não sabem que ele é assexual vão supor que ele tem relações com o namorado. Isso coloca esses assexuais na mira de fogo do preconceito homofóbico. Já os assexuais que mantém relacionamento com pessoas do outro sexo (heterorromânticos) não sofrerão esse preconceito; a relação afetiva, que é pública, será considerada “normal”. Todos os que olharem para esse casal vão supor que eles fazem sexo “normal”.
Isso dito, os assexuais chamados pela AVEN de arromânticos, que não desejam parceria afetiva, sofrem certa pressão social para estar em um relacionamento, namorarem, formarem família. Essa pressão vem da família e dos amigos. As pessoas assexuais podem viver sua vida sem saírem do armário. Quando se assumem como assexuais, certamente vão sentir certa pressão de seu meio, que os verão com “anormais”, “doentes”. Alguns assexuais relatam ter sofrido discriminação homofóbica na adolescência. Quando você não busca o sexo, o namoro, seu amigos imediatamente te classificam como gay que não tem coragem de sair do armário. Então, muitos acabam sofrendo discriminação homofóbica mesmo sem serem gays. Muitos vão ceder às pressões e vão buscar parceria sexual com o sexo diferente, saindo frustrados da experiência. Muitos, ainda, vão buscar parceria sexual com alguém do mesmo sexo, pensando que podem ser gays, saindo igualmente frustrados da experiência. Foi isso que aconteceu com o Alexandre, o personagem assexual da novela Malhação no primeiro semestre de 2010.
Portanto, as discriminações sofridas por gays e assexuais são diferentes. Um assexual arromântico ou heterorromântico dificilmente vai sofrer violência física que os gays sofrem, pois não serão reconhecidos na rua como pertencentes a uma orientação sexual minoritária. Mas um assexual homorromântico pode sofrer os mesmos preconceitos sofridos por gays e lésbicas, pois as manifestações afetivas em público poderão sinalizar a homossexualidade. Ninguém sabe que o casal não faz sexo.
Os movimentos assexuais nos EUA têm tentado uma aproximação com os movimentos LGBT, mas não têm tido sucesso, justamente por causa disso. Aos assexuais interessa estar no movimento LGBT por causa da visibilidade que esse movimento já alcançou historicamente. Por outro lado, os LGBTs não sentem identificação com os assexuais, pois seu movimento é construído em torno de um comportamento sexual discriminado. Já o movimento assexual é construído em torno de uma identidade que é caracterizada pela falta de um comportamento sexual. Enquanto minoria sexual, creio que os assexuais deveriam ter lugar no movimento LGBT.

8.      A internet é uma facilitadora para os assexuais, no sentido em que provê com informações e permite encontros, etc?

Sim. Antes das redes sociais, os assexuais viviam em condição de isolamento. Foi o advento da internet e das redes e comunidades sociais que permitiu que assexuais de diferentes partes do mundo aprendessem com sua troca de experiências e construíssem uma identidade assexual. Mas é importante destacar que como nem todo mundo tem acesso à internet, nosso conhecimento fica restrito às experiências daqueles que têm acesso. Pode-se dizer que quando a história da assexualidade for escrita um dia, ela vai ser dividida em antes e depois da AVEN.