domingo, 18 de setembro de 2011

Assexualidade e Identidade - Parte 3/3 – A dimensão romântica da assexualidade e as identidades LGBTQ

Nas postagens anteriores apresentamos os resultados da pesquisa da socióloga Kristin Scherrer, da Universidade de Michigan. Retomando, ela entrevistou 102 pessoas assexuais com idades entre 18 e 66 anos, recrutadas da AVEN (Asexual Visibility and Education Network). Entre as respostas dos entrevistados, emergiram três categorias julgadas importantes pela socióloga: a identidade assexual, o caráter essencialista da assexualidade (sobre os quais discutimos nas postagens anteriores) e a dimensão romântica da assexualidade, sobre a qual falaremos nesta postagem. A socióloga também descreve algumas intersecções entre a assexualidade e outras sexualidades marginalizadas, sobretudo as sexualidades LGBTQ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Queers).
Scherrer afirma que as complexidades da identidade assexual surgiram na pesquisa quando se perguntou aos entrevistados como estes descrevem sua sexualidade. 13 deles não responderam e os demais 88 responderam que são assexuais. No entanto, muitos entrevistados utilizaram uma linguagem específica para descrever sua assexualidade. Duas identidades principais foram citadas pelos participantes: identidade romântica e identidade arromântica. Nesta amostra, 11 entrevistados descreveram-se como arromânticos, enquanto 25 se identificaram como românticos. A socióloga diz que não incluiu perguntas sobre identidade romântica no roteiro de entrevistas, mesmo assim, essa característica emergiu entre os entrevistados, revelando sua importância para os participantes.
Um dos entrevistados explicou que ter uma identidade romântica significa que ele separa o romance do aspecto sexual. Diversos entrevistados enfatizam a diferença entre sua identidade sexual e sua identidade romântica. Uma das entrevistadas disse que se identifica como assexual e arromântica, isso significa que ela não deseja uma parceria amorosa, além de não desejar ter relações sexuais. Esta mesma entrevistada afirmou que assumir uma identidade romântica sinaliza o interesse (ou não) de uma pessoa por parcerias amorosas.
Essa diferenciação entre orientação romântica e arromântica torna-se mais óbvia quando os participantes descrevem o que consideram um relacionamento ideal. A descrição do relacionamento ideal feita por aqueles que se identificam como arromânticos é bastante semelhante à amizade, ou seja, um relacionamento com base em afinidades e interesses comuns. Muitos assexuais arromânticos afirmam que não sentem nenhum desejo de contato físico com esses amigos - como beijos, abraços, carícias -, desejando somente uma conexão intelectual e emocional. Os relacionamentos arromânticos não são monógamos. Os indivíduos podem ter vários relacionamentos nesse modelo com diversas pessoas ao mesmo tempo, sem que haja sentimentos de possessividade e ciúmes. Para os arromânticos, o sexo da pessoa com a qual se relacionam não parece ser importante.
Os assexuais que se identificam como românticos, na pesquisa de Scherrer, dizem que o relacionamento romântico ideal envolve algum tipo de contato físico, algum nível de intimidade física. Ao contrário dos relacionamentos dos arromânticos, os relacionamentos dos românticos normalmente são monógamos, duais, com regras bem semelhantes aos relacionamentos de casais não assexuais. Ao contrário dos arromânticos, os assexuais românticos expressam preferência pelo sexo/gênero da pessoa com a qual têm relacionamento amoroso. Podem sentir atração romântica pelo mesmo sexo, por sexo diferente, por ambos os sexos, por qualquer identidade de gênero. 25% dos entrevistados que responderam esta pergunta na pesquisa indicaram, adicionalmente, uma identidade LGBTQ, a qual aponta para o objeto de sua atração romântica: Seus relacionamentos podem ser heterorromânticos, homorromânticos, birromânticos, ou outras classificações relacionadas ao universo queer (universo das sexualidades não normativas).
Um achado interessante da pesquisa de Scherrer diz respeito à situacionalidade das identidades assexuais. Alguns entrevistados revelaram invocar diferentes identidades, dependendo do meio em que estão em determinados momentos. Uma das entrevistadas revelou que, quando está no meio assexual, identifica-se como assexual ou como lésbica assexual. Quando está no meio queer (portanto, de pessoas não assexuais), identifica-se primeiro como queer, depois como lésbica, por último, como lésbica assexual. Esta entrevistada, portanto, avalia a relevância das informações de sua identidade, invocando aquela que mais se aplica tanto a si mesma, como à comunidade na qual está engajada em determinado momento.
Dos 23 indivíduos que se identificaram como queer nessa amostra, 48% identificou-se romanticamente como bi (bi-curioso ou bissexual). Scherrer observa que este é um percentual elevado de indivíduos bi, quando comparado a outros estudos que incluem gays, lésbicas e bissexuais. Scherrer pondera que essa grande concentração de indivíduos bi entre os assexuais ajuda a iluminar a construção das identidades assexuais. Os assexuais bi revelam sentir-se atraídos pela personalidade, pelo intelecto, características que independem do sexo de potenciais parceiros. Apesar disso, o sexo/gênero do próprio indivíduo parece ser central para a construção de identidade dos assexuais que se identificam como bi.
Para finalizar, Scherrer aponta algumas semelhanças e diferenças entre os assexuais e outras minorias sexuais, como os LGBTQ:
  1. A assexualidade, ou melhor, a falta de desejo/atração sexual, tem sido patologizada pela instituição médica ao longo da histórica, o que a aproxima de outras minorias sexuais.
  2. As identidades e comportamentos LGBTQ têm sido criminalizados pelas instituições jurídicas em diferentes momentos históricos e em diferentes culturas. A assexualidade tem passado despercebida pelas instituições jurídicas, provavelmente pela falta de comportamento sexual dos indivíduos que se identificam como assexuais.
  3. Tanto os assexuais como outras sexualidades minoritárias têm criado comunidades fundamentadas em identidade sexual. Tanto assexuais como lésbicas, gays, bissexuais, transexuais usam as comunidades para obter apoio, conhecer pessoas e também a para a organização política. Tanto os assexuais como os grupos LGBTQ utilizam a internet e as novas tecnologias para a formação de comunidades.
  4. As comunidades LGBTQ, além de estarem na internet, estão também representadas no espaço público real, como bares, livrarias, paradas e grupos organizados. Os assexuais ainda não ocupam o espaço público de forma organizada e coletiva, nem têm a mesma visibilidade que os LGBTQs já conquistaram.
  5. As comunidades LGBTQ têm símbolos culturais (como as bandeiras de arco-íris, entre outros), que devido a sua visibilidade, são amplamente reconhecidos pela população em geral. O mesmo não ocorre com os assexuais; seus símbolos ainda estão muito localizados nas grandes comunidades internacionais, não sendo reconhecidos fora desses espaços.
  6. Tanto assexuais como lésbicas, gays, bissexuais e transexuais passam pelo mesmo processo sociopsicológico de ter que revelar sua sexualidade à família, amigos e comunidade, num movimento conhecido como “sair do armário”.
  7. Tanto indivíduos assexuais como lésbicas, gays, bissexuais e transexuais normalmente sentem que sua sexualidade é inata, biologicamente determinada.
Eu acrescentaria a esta lista mais uma diferença: as principais minorias sexuais são criticadas pelas instituições religiosas, que classificam suas práticas como pecado ou aberração. Isso não acontece com a assexualidade. No que se refere a comportamento sexual, a assexualidade guarda algumas semelhanças com o celibato, comportamento estimulado em determinadas circunstâncias por muitas religiões. No entanto, é importante lembrar que o estigma social sofrido por lésbicas, gays, bissexuais e transexuais também podem atingir os assexuais românticos cuja orientação afetiva não seja a heterorromântica, ou cuja identidade de gênero não seja cisgênero (pessoas que sentem que seu corpo biológico está em conformidade com sua identidade de gênero, que é o contrário de transgênero).

Scherrer afirma que as semelhanças entre os assexuais e outros grupos não heteronormativos poderia estimular o trabalho conjunto desses grupos em direção a uma ação política organizada. Os grupos poderiam, por exemplo, trabalhar coletivamente para a despatologização das identidades dos comportamentos sexuais minoritários e para a mudança do discurso médico sobre sexualidades marginalizadas.

ARTIGO COMENTADO
SCHERRER, K. S. Coming to an asexual identity: negotiating identity, negotiating desire. Sexualities, 2008; Vol 11(5): 621–641

3 comentários:

  1. - Ainda não encontrei um grupo religioso amigável. Salvo poucas vozes isoladas. A grande maioria venera o CELIBATO e não a assexualidade. Especialmente pela CONDIÇÃO:

    A condição do celibatário é OBJETIVA. Ela é conscientemente, deliberadamente imposta sobre si mesmo.

    A condição da assexualidade é SUBJETIVA. É espontaneamente formada, e as pessoas sempre dirão que não foi uma construção deliberada.

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  2. Obrigada por tamanha clareza,... perfect!

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