sábado, 12 de novembro de 2011

Diferenças e semelhanças entre os assexuais – Parte 1/2

O artigo sobre o qual falaremos hoje foi escrito pelo sociólogo e filósofo  Mark Carrigan, do Departamento de Sociologia da Universidade Warwick, Reino Unido. Carrigan afirma que seu interesse pela assexualidade como tema para pesquisa surgiu quando soube que dois de seus amigos identificavam-se como assexuais. A partir de conversas informais com esses amigos - nas quais o sociólogo aprendeu as “bases” da assexualidade e familiarizou-se com o vocabulário assexual -, decidiu pesquisar essa “nova” orientação sexual. Este artigo apresenta alguns resultados preliminares de sua pesquisa, a qual ainda está em andamento.
As identidades e as experiências vividas por indivíduos que se identificam como assexuais constituem o foco do artigo de Carrigan. O pesquisador esperava, com sua investigação, responder à seguinte pergunta; quais são as diferenças e as semelhanças entre pessoas que se identificam como assexuais? Nesta postagem falaremos sobre as diferenças; na próxima postagem falaremos sobre as semelhanças encontradas na pesquisa de Carrigan.
O sociólogo fez, em primeiro lugar uma análise temática de diversos fóruns, sites e blogs sobre assexualidade; em seguida, fez entrevistas semiestruturadas com pessoas que se autoidentificavam como assexuais e, por último, aplicou um questionário aberto, respondido por membros de comunidades virtuais. Os indivíduos entrevistados e os que responderam o questionário on-line fazem parte principalmente de três comunidades virtuais: AVEN (Asexual Visibility and Education network), A-Positive e Asexuality LiveJournal. Carrigan entrevistou 8 pessoas. O questionário aberto continha 27 perguntas e foi respondido por um total de 174 pessoas, sendo que 130 responderam a todas as perguntas.
A definição de assexualidade mais aceita entre os pesquisados é aquela proposta pela AVEN: “assexual é uma pessoa que não sente atração sexual”. Apesar disso, Carrigan percebe que as experiências dos assexuais nem sempre estão dentro dos limites desta definição. Para o pesquisador, esta definição esconde a heterogeneidade dentro desse grupo, principalmente porque não considera os diferentes motivos para que cada um se identifique como assexual.
Uma das diferenças encontradas por Carrigan entre seus pesquisados assexuais foi sua orientação romântico-afetiva. Em primeiro lugar, existem aqueles que não têm nenhum interesse por relações amorosas, - os chamados arromânticos – e aqueles que têm interesse amoroso – os chamados românticos. Os românticos podem interessar-se por pessoas do mesmo sexo, por pessoas de sexo diferente, por qualquer dos sexos, ou o interesse pode ser independente do sexo/gênero. São denominados, respectivamente, homorromânticos, heterorromânticos, birromânticos e panromânticos. Esse vocabulário também foi encontrado pela socióloga Kristin Scherrer em sua pesquisa de 2008, cujo artigo foi discutido em postagens anteriores.
Outra diferença encontrada pelo pesquisador no interior da comunidade assexual diz respeito ao grau de assexualidade experimentado por cada indivíduo.

- o assexual  não sente atração sexual em nenhuma circunstância.
- o demissexual sente atração sexual somente como consequência da atração romântica, nunca independente desta. Quando mantém uma relação emocional com uma pessoa, a atração sexual pode acontecer, mas somente por aquela pessoa, por nenhuma outra.
- o assexual cinza (Gray-A) se encontra na zona cinza percebida entre a assexualidade e a sexualidade; Carrigan dá como exemplo um entrevistado que diz que algumas vezes sente atração física por determinada pessoa, embora não sinta vontade de fazer sexo com ela. Se o sexo acontecer, é possível que o assexual cinza sinta algum prazer, embora não sinta desejo pela atividade sexual.
- o assexual fluido afirma que sua experiência com a atração sexual é fluida e circunstancial. Carrigan diz que somente um entrevistado em sua pesquisa afirmou ser um assexual fluido.
Essa diferenciação de vocabulário em relação ao grau de assexualidade é descrita no site da AVEN, e também foi constatada por outros pesquisadores. Outro conjunto de palavras do vocabulário assexual que traduz mais diferenças entre os membros dessa comunidade, diz respeito à atitude da pessoa assexual em relação à atividade sexual (numa tradução bem livre das palavras em inglês):
- sexo-positivo: pessoa assexual que considera a atividade sexual natural, saudável e boa para quem gosta. O sexo-positivo não tem nada contra o sexo; só não tem nenhum interesse na prática, mas pode ter interesse intelectual ou cultural sobre o tema.
- sexofóbico: pessoa assexual que têm aversão à prática sexual de um modo geral. Geralmente considera o sexo como algo nojento, nauseante.
- sexo-indiferente (ou neutro): pessoa assexual totalmente indiferente à prática sexual; não acha que sexo é nojento, mas também não deseja fazer.
- antissexo: pessoa (não necessariamente assexual) que pensa que a atividade sexual deveria ser extinta da face da terra, exceto para fins de reprodução. Existe um movimento antissexo em alguns países.
Os assexuais entrevistados por Carrigan têm atitudes bem diferentes em relação ao sexo. Alguns dizem que jamais farão sexo; outros dizem que não têm interesse por sexo, mas fariam para agradar seus parceiros românticos; outros dizem que sentem repulsa pela simples ideia do sexo. Alguns assexuais afirmam que o sexo com seus parceiros românticos não assexuais pode ser fonte de intimidade, mesmo não sendo prazeroso para eles. Outros dizem que a atividade sexual é uma tarefa que se sentem obrigados a fazer.
Para quem é sexofóbico ou antissexo, a ideia do sexo é muito problemática. Aqui também há variedade. Alguns dizem sentir-se desconfortáveis por achar que a atividade sexual não é natural; outros se sentem levemente enojados pelo sexo; por último estão aqueles que pensam que o sexo é extremamente repulsivo.
Estas foram as diferenças encontradas por Carrigan no interior da comunidade assexual. Na próxima postagem apresentaremos as semelhanças compartilhadas por muitos assexuais entrevistados na pesquisa de Carrigan.

TEXTO COMENTADO
Carrigan, Mark. There’s more to life than sex? Difference and commonality within the asexual community. Sexualities 14(4), 2011, p. 462-478