domingo, 18 de dezembro de 2011

Diferenças e semelhanças entre os assexuais – Parte 2/2

Na última postagem, falamos sobre artigo do sociólogo Mark Carrigan, do Departamento de Sociologia da Universidade Warwick (Reino Unido) sobre as semelhanças e diferenças encontradas por ele em sua pesquisa com membros de comunidades virtuais de assexuais. Relatamos, então, as principais diferenças; hoje, discorreremos sobre os aspectos comuns compartilhados pela comunidade.
Relembrando, Carrigan fez primeiramente uma análise temática de fóruns, sites e blog dedicados à discussão da assexualidade; em seguida, aplicou um questionário aberto – respondido por 174 pessoas autoidentificadas como assexuais; por último, fez entrevistas aprofundadas com 8 pessoas. Na primeira parte da pesquisa, o estudioso constatou a grande diversidade entre os assexuais. Por exemplo: alguns assexuais estão dispostos a fazer sexo, enquanto outros sentem repulsa pelo ato; alguns desejam uma relação amorosa, outros não têm essa necessidade; a atração romântica de alguns está fundamentada em gênero; para outros, gênero é irrelevante. Carrigan afirma que um dos aspectos mais curiosos da comunidade assexual é a sua capacidade de articulação da diferença individual e, simultaneamente, a solidificação de uma identidade comum.
Nesta parte da pesquisa, o sociólogo explora as semelhanças das experiências dos assexuais entrevistados, tentando compreender a gênese da diversidade já discutida na parte anterior, com ênfase nas trajetórias a caminho da autoidentificação como assexual. Ele diz que, embora os detalhes biográficos específicos variem conforme o entrevistado, cinco aspectos são comuns à maioria dos assexuais em sua trajetória em busca de si:
1) A percepção de existe uma diferença individual em relação aos outros;
2) Autoquestionamento sobre essa diferença;
3) Construção de hipóteses explicativas para a falta de interesse por sexo;
4) Conhecimento da “existência” da assexualidade;
5) Formação de uma identidade assexual na comunidade e fim do autoquestionamento.
Um bom exemplo dessas etapas é a trajetória de uma das jovens entrevistadas na pesquisa. Quando adolescente, não conseguia entender ou acreditar quando suas amigas lhe falavam sobre seus desejos e fantasias em relação a sexo e relacionamentos amorosos, pois isso não ocorria com ela. Mesmo tendo tido aulas de educação sexual na escola, nada em sua própria experiência confirmava o que diziam colegas e professores. Enfim, chegou à conclusão de que era diferente de suas colegas, passando à crença de que havia algo errado com ela. Seu autoquestionamento só chegou ao fim quando conheceu o conceito de assexualidade e, a partir daí, foi possível construir uma identidade assexual juntamente com outros assexuais da comunidade.
Carrigan observa que, em dado momento da vida, o indivíduo assexual tem primeiramente uma percepção de que é diferente de seus amigos. No entanto, não é a simples percepção da diferença que gera o autoquestionamento, afinal, a diferença entre as pessoas pode ter  origens diversas: diferenças de personalidade, valores, crenças, comportamento, interesses, prioridades, tudo isso torna as pessoas diferentes. No entanto, a percepção se torna certeza quando constatam que, ao longo do tempo, suas experiências começam a divergir das vivências de seus amigos. Os amigos não assexuais começam a engajar-se em relacionamentos amorosos e sexuais, e essa é a maior prova de que existe uma diferença significativa entre o eu e o outro. Essa certeza é que gera o autoquestionamento. Além disso, o indivíduo pode também ser cobrado socialmente sobre os motivos de sua indiferença ao sexo e/ou aos relacionamentos. Essa cobrança também colabora para que haja o autoquestionamento.
Durante o processo de autoquestionamento, o indivíduo assexual tenta dar sentido à sua falta de interesse pelo sexo, formulando diferentes hipóteses para sua aparente indiferença, em busca de uma explicação plausível. Uma hipótese possível – por estar tão difundida pela medicina e pelos meios de comunicação – é que exista uma patologia, algum transtorno fisiológico, psicológico ou emocional que esteja impedindo que aflore o interesse pelo sexo. Entre os entrevistados de Carrigan, esta hipótese patológica é considerada no início do processo de autoquestionamento, sendo, na maioria dos casos, rejeitada e substituída posteriormente por hipóteses mais positivas.
Por outro lado, existem aqueles que passam de uma explicação patológica para outra explicação patológica, experimentando grande sofrimento, na certeza de que são doentes ou anormais. É caso de uma das entrevistadas de Carrigan. Às vésperas de seu casamento, a jovem resolveu que tinha que “curar” sua indiferença ao sexo antes da cerimônia. Procurou um terapeuta, discutiu sua infância, suas experiências, em busca de algum acontecimento que explicasse sua falta de interesse pela atividade sexual. Quando essa tentativa fracassou, a jovem buscou um endocrinologista, o qual, após exames clínicos, garantiu que não havia nada de errado com seus hormônios. Mesmo assim, ela implorou que o médico lhe prescrevesse injeções de hormônios. Tomou testosterona por meses, mas o problema não foi resolvido. Em seguida, passou a tomar progesterona, que também não mudou sua situação. A essa altura, ela já tinha se casado e fazia sexo por obrigação, sem nenhuma vontade, era muito infeliz. Nem mesmo um longo período de terapia de casal pôde salvar o casamento. Essa jovem só atingiu a felicidade quando, finalmente, passou a identificar-se -  para si mesma e para o mundo -,  como uma mulher assexual. À medida que ela começou a se aceitar como assexual, todo o sofrimento foi embora e ela conquistou o equilíbrio e a felicidade que tanto almejava.
Um ponto em comum entre os assexuais entrevistados foi a importância da descoberta das comunidades de assexuais na internet como etapa fundamental em seu processo de autoconhecimento. A aquisição de uma identidade comunitária afasta a patologia, a ambiguidade e o isolamento experimentados pelo assexual como indivíduo. A comunidade possibilita a autoaceitação e o compartilhamento de experiências comuns, a formação de amizades e parcerias românticas assexuais.
O artigo de Carrigan ilumina bastante alguns aspectos da assexualidade que ainda não tinham sido explorados por outros pesquisadores. O autor encerra o artigo colocando uma série de outras perguntas que espera poder responder ao longo de sua pesquisa.

TEXTO COMENTADO
Carrigan, Mark. There’s more to life than sex? Difference and commonality within the asexual community. Sexualities 14(4), 2011, p. 462-478

Gostaria de desejar a todos os leitores do Blog Assexualidades um felicíssimo Natal e muitas realizações e sucesso para 2012. Agradeço de coração a todos vocês pela força que têm dado ao blog; esse apoio tem sido fundamental para a continuidade da minha pesquisa. Um abraço muito carinhoso!