domingo, 9 de dezembro de 2012

Curta metragem aborda a assexualidade

Prezados leitores e leitoras,



Gostaria de divulgar o curta metragem "Escaleno" feito pelos alunos e alunas do cursos de Relações Públicas e Publicidade e Propaganda da Escola de Comunicações e Artes da USP, o qual aborda a assexualidade de forma muito lúdica, ética, aberta despatologizada. Parabéns ao Pedro Henrique Giacommetti Pereira e aos demais participantes pelo belíssimo trabalho e pela abordagem realista da assexualidade.

O vídeo está disponível no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=nuJIJ9F6wYU&feature=youtu.be

Neste momento de minha pesquisa, estou procedendo a análise das entrevistas concedidas tão generosamente por dezenas de leitores do Blog, aos quais agradeço de coração.  Em breve, retomarei as postagens trazendo a vocês as novidades que estão sendo desenvolvidas no estudo da assexualidade no exterior. E uma novidade vinda do Brasil:  um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) da Faculdade de Direito da Universidade Estadual do Maringá, trabalho muito competente da aluna  Gabriela Palma. Neste trabalho, a Gabriela discute algumas questões jurídicas importantes para se pensar a assexualidade no contexto do casamento.

Tenho sido procurada por diversas pessoas que pretendem abordar a assexualidade como tema de suas pesquisas para o TCC. Isso me deixa muito feliz, em saber que o tema está ganhando visibilidade por meio das pesquisas de graduação. Essa colaboração vai ser valiosa para os estudos sobre a  assexualidade no Brasil.

Um abraço carinhoso em todos vocês.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Não somos todos iguais: entrevista concedida à Revista Metrópole

Recentemente concedi uma entrevista sobre assexualidade à Revista Metrópole, do Jornal Correio Popular de Campinas.  Publico abaixo a entrevista completa, que pode ser de interesse dos/as leitores/as do Blog.
Gostaria, em primeiro lugar, de saber como está sua tese de doutorado sobre assexuais? Aliás, tanto faz usar o termo assexuais ou assexuadas?
Minha pesquisa de doutorado - que busca conhecer as trajetórias de pessoas assexuais no processo de autoidentificação como tal – está na fase das entrevistas com pessoas autoidentificadas como assexuais. As entrevistas serão analisadas à luz de bibliografia teórica pertinente. A pesquisa está sendo feita na Faculdade de Educação da USP, na linha de pesquisa Sociologia da Educação.
Nas comunidades virtuais brasileiras, a palavra mais utilizada é assexuado/a. Fiz opção pelo uso da palavra assexual por ser a palavra já utilizada na literatura internacional sobre o tema. Além disso, como a perspectiva trabalhada é a de orientação sexual, a palavra assexual segue a mesma formação de outras palavras que nomeiam outras orientações sexuais, como heterossexual, homossexual e bissexual.

A senhora já defendeu a tese? Quando (foi ou será)?. Me fale mais de seu interesse no tema?
A tese será defendida em 2014. Meu interesse no tema surgiu a partir da constatação de que, apesar de haver comunidades de assexuais no Brasil, não havia pesquisas acadêmicas sobre este tema no país. Nos Estados Unidos, e em outros países, os assexuais estão se organizando em movimentos para a visibilidade da assexualidade nos meios de comunicação. No Brasil, as interações entre os assexuais restringem-se às poucas comunidades existentes no Orkut e na Comunidade Assexual A2 (www.assexualidade.com.br). Embora a mídia brasileira esteja publicando matérias sobre a assexualidade pelo menos desde 2003, a academia infelizmente não seguiu o mesmo caminho.

Sua formação é sociologia, correto? Fale um pouco de seus estudos.
Sou pedagoga, com mestrado em sociologia da educação. Sou integrante da organização não governamental ECOS – COMUNICAÇÃO EM SEXUALIDADE, onde desenvolvo pesquisa sobre diversidade sexual, relações de gênero e educação em sexualidade. Meu mestrado - defendido na Faculdade de Educação da USP em 2007 -, foi sobre gravidez e maternidade na adolescência. No doutorado continuo a pesquisar a sexualidade, só que desta vez com o foco direcionado à diversidade sexual.

Li no seu blog, sobre sua pesquisa sobre assexualidade. Como funciona? Quem pode participar?
Podem participar pessoas que se autoidentifiquem como assexuais, preferencialmente a partir de 18 anos de idade. A pesquisa é exploratória, de caráter qualitativo e busca compreender o processo de autoidentificação como assexual.

Sua palestra tem como tema “o desejo sexual é universal”? Então, pergunto: ele é?
Essa é uma das provocações que costumo colocar para explicar o que é a assexualidade. Sempre fomos levados a acreditar que sim. O desejo sexual foi construído historicamente (sobretudo pelas ciências médicas) como universal, ou seja, todas as pessoas, independente da época, da cultura, do meio social devem sentir desejo sexual (de preferência desejo heterossexual), pois, supostamente, corpo biológico é o lócus da sexualidade. Mas sabemos que a sexualidade não está somente no corpo biológico. Ela se constrói no interior das relações sociais, desenvolvidas em determinadas culturas, em determinadas épocas e contextos diversos. Hoje temos um grupo emergente de pessoas – os assexuais – que contestam este postulado histórico. Essas pessoas têm nos mostrado, nos últimos 10 anos, que existe muita coisa que ainda não sabemos sobre a sexualidade humana. Inclusive que a falta de interesse pelo sexo faz parte da construção social da sexualidade. A falta de interesse não seria necessariamente um transtorno, mas uma variação da sexualidade humana. Mais uma cor no arco-íris da diversidade sexual.

Como definir o que é ser assexual?
A assexualidade é uma interpretação da falta de desejo (antes sempre considerada um distúrbio). Ainda não existe uma definição totalmente acabada da assexualidade. Essa definição ainda está sendo construída, tanto pelos assexuais como pelos pesquisadores estudiosos da assexualidade. Em linhas gerais, ser assexual significa não ter nenhum – ou pouquíssimo – interesse pela atividade sexual. Essa falta de interesse não é uma escolha do sujeito assexual e, em geral, não lhe traz infelicidade, angústia ou desconforto. Assim como a heterossexualidade, homossexualidade ou bissexualidade, a assexualidade não é uma escolha. A falta de interesse pelo sexo não significa que a pessoa não tenha interesse por relacionamentos amorosos. Sexo e amor são coisas separadas para os assexuais. Eles acreditam ser possível manter relacionamentos amorosos que não envolvam atividade sexual. Mas também existem assexuais que não têm interesse nem mesmo em relacionamentos amorosos. A assexualidade não diz respeito ao comportamento sexual. Uma pessoa assexual pode fazer sexo, apesar da falta de interesse, não há nada de errado com seu corpo. Muitos assexuais mantêm relacionamentos amorosos com pessoas não assexuais, e fazem sexo para dar prazer a seus parceiros, apesar da falta de interesse.

Na sua opinião, a assexualidade pode ser reconhecida como uma quarta orientação sexual (além de heteros, homos e bissexuais)?
Para os assexuais membros das comunidades assexuais norte-americanas, a assexualidade é uma orientação sexual. Porém, entre os poucos pesquisadores da assexualidade no mundo, isso ainda não é consenso. A assexualidade têm muitas semelhanças com outras orientações sexuais. Como outras orientações sexuais, a assexualidade (falta de interesse por sexo) é patologizada pela medicina, por exemplo, pois vivemos numa sociedade na qual o desejo sexual é compulsório. Outra semelhança é que os assexuais, em determinado momento da vida, sentem-se diferentes de seus colegas da mesma idade. Na adolescência, podem perceber que seus colegas passam a se interessar por sexo e relacionamentos amorosos, e não compreendem por que não sentem o mesmo. Os assexuais não se identificam com a forma com que a sexualidade está colocada na sociedade. Esse processo de desindentificação pode levar a pessoa assexual ao isolamento e ao sentimento de inadequação social. Por sua falta de interesse pelo sexo, alguns assexuais relatam ter sofrido discriminação, até mesmo homofobia, pois seus colegas - e até as famílias -,  pensam que eles são homossexuais enrustidos. Como não existem referências de identificação na sociedade (ao contrário do que ocorre com os homossexuais), - e também pela falta de informações sobre a assexualidade – jovens assexuais não têm a quem recorrer para esclarecer suas dúvidas. É difícil entender a assexualidade num contexto que patologiza a falta de interesse por sexo. Outra coisa que deve ficar clara é que a orientação assexual implica também uma orientação afetiva, que pode ser homo, hetero ou bi, ou nenhuma. Ou seja, os assexuais com interesse amoroso podem sentir atração amorosa pelo mesmo sexo, por sexo diferente ou por qualquer dos sexos. Portanto, uma pessoa pode ser ao mesmo tempo assexual e gay; assexual e lésbica; assexual e bi; ou assexual sem nenhuma orientação afetivo-amorosa (sem interesse por relacionamentos amorosos).

Diversas patologias são atribuídas às pessoas que não praticam o sexo, de acordo com o Manual Estatístico e Diagnóstico de Distúrbios Mentais (DSM) - publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. Na lista aparecem transtornos sexuais sofridos pelas mulheres, como: transtorno do desejo sexual hipoativo, transtorno da aversão sexual, transtorno de excitação, anorgasmia, dispareunia e vaginismo. Não raramente, a sociedade atual equipara a necessidade sexual a outras necessidades biológicas como o alimento e o sono. Pensando assim, como diferenciar os diagnósticos?
Quando falamos de distúrbios sexuais, estamos considerando que existe um padrão normal e desejável de sexualidade (heterossexual, cisgênera e reprodutiva). Portanto, qualquer comportamento ou identidade sexual que se afaste disso, é considerado um distúrbio que requer diagnóstico, tratamento e cura.  Basta comparar as sucessivas edições do DSM para ver a proliferação de distúrbios sexuais que são acrescentados a cada nova edição. Com isso, a poderosa indústria de terapias, medicamentos e tratamentos cresce a partir do desejo das pessoas em atingirem determinados padrões sexuais considerados normais. Existem livros escritos sobre como a indústria farmacêutica norte-americana lucra com as chamadas disfunções sexuais femininas. Portanto, existem interesses econômicos e políticos por trás desses diagnósticos. Com isso, não estou afirmando que distúrbios não existam. Se uma pessoa que sempre teve determinado padrão de desejo, de repente, vê esse padrão diminuir ou desaparecer, se isso lhe traz infelicidade, certamente deve buscar ajuda médica ou psicológica para descobrir a origem do problema.
A assexualidade não é um diagnóstico. É uma interpretação da falta de interesse pelo sexo. Se existem pessoas que nunca tiveram interesse pelo sexo e são felizes dessa forma, não faz sentido buscar ajuda. A sociedade é que deve absorver esse conceito e reconhecer essas pessoas. Os assexuais são a prova viva de que a necessidade sexual não pode ser equiparada a outras necessidades biológicas, como alimento ou água. Isso é o que a mídia propaga; isso é o que as ciências biológicas propagam, isso é o que a indústria do consumo propaga. A sexualidade não está somente no corpo biológico, como eu já disse. Se a pessoa acredita que o sexo é fundamental, ela vai construir sua vida em torno dessa crença, e pode se sentir infeliz quando estiver impossibilitada de fazer sexo, ou de ter um relacionamento amoroso. Se a pessoa acredita que para ela o sexo não é importante – ou totalmente dispensável – ela vai viver sua vida bem e ajustada em torno dessa crença, ou sentir-se infeliz se for obrigada a fazer sexo. O sofrimento pode vir da pressão social para que ela siga o comportamento da maioria, não da falta de interesse por sexo. Embora vez por outra apareçam estudos apontando os benefícios do sexo para a saúde física e psicológica, eu não conheço nenhum estudo que consiga provar sem sombra de dúvida que a atividade sexual isoladamente está promovendo aqueles benefícios apurados. Ou que somente a atividade sexual promova aqueles benefícios; por exemplo, alimentação equilibrada, exercícios frequentes, baixo nível de stress, convívio com amigos também trazem benefícios para o corpo e para a mente da maioria das pessoas. Não há dúvida que a atividade sexual traz benefícios, mas outras atividades prazerosas também trazem. As fontes de prazer são diferentes para pessoas diferentes.

Como entender alguém que simplesmente diz: não gosto de sexo e não tenho nenhuma doença? É verdade 7% das mulheres e 2,5% dos homens garantem viver perfeitamente sem sexo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde?
Por que uma pessoa que diz que não gosta de sexo e é feliz assim teria que fazer exames médicos e provar para os outros que é saudável? Por que quando alguém diz “sou heterossexual e adoro sexo”, ninguém pede a ele ou ela que faça exames para saber se é normal? Infelizmente trabalhamos com padrões de normalidade que não traduzem as experiências reais que as pessoas vivem. Temos que desconstruir a ideia de que o desejo sexual é universal, que é somente biológico, que independe da cultura, da história, das relações sociais, pois tudo isso constitui as sexualidades Só é possível entender a assexualidade - e as demais sexualidades - a partir dessa desconstrução.
Se 7% das mulheres e 2,5% dos homens dizem viver bem sem sexo, esses números só revelam que essas pessoas são (ou estão temporariamente) celibatárias, não que são assexuais. Celibato é uma escolha pela abstinência sexual; a assexualidade não é uma escolha. A assexualidade vai muito além do comportamento sexual. Nem todo mundo que não faz sexo é assexual; e muitos assexuais fazem sexo. Fazemos sexo por diversos motivos além do desejo sexual.

Na sua opinião, é maior o preconceito com quem não pratica sexo do que com aqueles que o fazem excesso?
Sem dúvida. Basta verificar a lista de distúrbios sexuais do DSM para constatar que a maioria diz respeito a falta (falta de desejo, falta de orgasmo, falta de prazer, falta de excitação, falta de ereção, etc.) Para o excesso ser considerado uma patologia, ele deve ser extremo. Compreende-se facilmente o excesso de desejo, mas não se compreende a falta dele. Socialmente é a mesma coisa, principalmente para os homens. Gostar de sexo e estar buscando sexo constantemente faz parte da construção da masculinidade mais valorizada. É preciso muita coragem para um homem se assumir como assexual numa sociedade tão machista como a nossa.

Vivemos em uma sociedade que, não raramente, banaliza o sexo. Talvez por este motivo, e também por falta de didática dos pais, muitos adolescentes não estão preparados para falar sobre sexo - ou se manifestarem sobre a questão. Então, como os pais podem reconhecer a assexualidade dos filhos e ajudá-los?
Não há como reconhecer a assexualidade, a não ser que a pessoa se autoidentifique dessa forma e revele a seu círculo social. É possível que um/a jovem tenha outras prioridades, como os estudos, a inserção no mercado de trabalho, lazer com amigos, e deixe os relacionamentos amorosos e sexuais para mais tarde na vida. Em minha opinião, os pais devem manter-se abertos e disponíveis para conversar com os filhos sobre todos os assuntos, inclusive sobre sexo. Acredito que uma lição importante que os pais devem passar a seus filhos é que, ao contrário do que propaga a novela das 8, a propaganda de refrigerante, o que fazem os amigos, o que se ouve na mídia, a atividade sexual não tem que ser necessariamente prioridade na vida do/a jovem. Existem muitas outras coisas importantes para aprender com os relacionamentos. Sexo não é tudo na vida.

Alguém que antes gostava, e depois de uma experiência traumática, deixou de gostar de sexo, pode ser considerado um assexuado?
Uma pessoa nessas condições deve procurar ajuda psicológica para superar seu trauma. A falta de desejo, nesse caso, pode ser consequência da experiência traumática.

Em geral, aprendemos que o sexo faz parte de nossa condição humana e não à toa o ato sexual está relacionado a reprodução - e a preservação da espécie. Além disso, também os animais fazem sexo. Sendo assim, a falta de libido não deve ser investigada como uma "falha" do corpo?
Não necessariamente, os assexuais estão aí para provar isso. Nós não somos exatamente como os animais irracionais; nós temos inteligência, autocontrole, poder de planejar, de construir, de escolher, de decidir. Como disse anteriormente, a sexualidade não ocorre somente no corpo biológico. É preciso desconstruir a ideia de que todos os seres humanos de todas as épocas e de todas as culturas sejam iguais. Não somos todos iguais. O principal problema da assexualidade é que sua principal característica – a falta de interesse por sexo –, pode ser também interpretada como transtorno. Isso diferencia a assexualidade de outras orientações sexuais.

Quais, na sua opinião, são os obstáculos de quem levanta essa bandeira da abstinência e dos que lutam para o reconhecimento da assexualidade?

·        Viver numa sociedade que considera que o desejo sexual é universal e que a atividade sexual é indispensável para a saúde e felicidade.
·         Viver numa sociedade que apregoe que não fazer sexo – ou não desejar o sexo – não é normal
·         Viver numa sociedade que ensina que não é possível ter relacionamentos amorosos prazerosos que não envolvam a atividade sexual.
·         Viver numa sociedade que apregoe que o sexo é necessariamente consequência do amor.
·         Viver numa sociedade que considera que não é possível ser feliz sozinho.
·         Viver numa sociedade que priorize a atividade sexual, quando existem tantos outros aspectos importantes na vida.
·         Viver numa sociedade que não acredite na diversidade humana
·        Viver numa sociedade que não respeita o direito individual de cada um de tomar decisões em relação ao uso de seu corpo.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Link para entrevista sobre assexualidade na RedeTV


A RedeTV! liberou o link para minha entrevista sobre assexualidade com o apresentador Amaury Jr, que foi ao em 14/06/12:  http://mediacenter.amauryjr.com.br/mediacenter/principal_video.asp?id=3404

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Ovelhas, ratinhos e ratões: a assexualidade no mundo animal

Embora a abordagem da minha pesquisa seja sociológica, hoje trago um artigo sobre a assexualidade humana produzido na área de biologia, escrito pelos cientistas Wendy Portillo e Raul Paredes, do Instituto de Neurobiologia da Universidade Autônoma do México. Faço um recorte no artigo para relatar somente as observações gerais e as conclusões dos autores, uma vez que parte do artigo traz informações e dados muito complexos para quem não conhece a área de biologia, como é o meu caso.
Em minha opinião, abordagens biológicas da sexualidade trazem três problemas principais. Em primeiro lugar, priorizam aspectos sexuais do corpo biológico (genes, hormônios, etc.) e não consideram as construções históricas, culturais e sociais tanto do corpo como da sexualidade. O segundo ponto problemático de algumas pesquisas é a busca em estabelecer semelhanças de padrões de comportamento humano e comportamento animal, gerando o questionamento sobre a possibilidade realista dessas comparações. O terceiro problema é que estas pesquisas – por mais bem-intencionadas que sejam – acabam por patologizar determinados comportamentos sexuais humanos, ao utilizar o padrão comportamental heterossexual como modelo a partir do qual as outras sexualidades são avaliadas.
Apesar desses problemas, as pesquisas do campo da biologia têm trazido algumas contribuições à compreensão da sexualidade em sua totalidade, considerando que existe um corpo biológico no qual parte da sexualidade acontece. Portanto, é útil ao menos conhecê-las.
Os autores fazem uma introdução ao artigo, a partir de suas leituras da obra de Alfred Kinsey (que também era biólogo) e também de alguma produção teórica sobre assexualidade, sobretudo do psicólogo canadense Anthony Bogaert. Em seguida, trazem suas próprias considerações sobre assexualidade a partir de suas experiências no campo da neurobiologia.
Portillo & Paredes afirmam que em diversas espécies de mamíferos, a ciência já tinha observado a existência de machos aparentemente normais, que não seguiam o padrão de conduta sexual da maioria, mesmo quando estimulados por fêmeas sexualmente receptivas. Esses animais, conhecidos como não copuladores (NC), poderiam ser equivalentes aos assexuais humanos. Mesmo assim, reconhecem os autores, é necessário reconhecer as limitações dessas comparações, considerando que o ser humano é portador de uma estrutura psicológica, impossível de se analisar nos animais.
As espécies de animais nos quais foram identificados machos não copuladores são as ovelhas e algumas espécies de roedores, como ratos, cobaias, camundongos e hamsters. Os machos não copuladores correspondem de 1%-5%, porcentagem próxima à estimativa de alguns cientistas para humanos que não têm interesse pela atividade sexual. Os pesquisadores ressaltam que não existem estudos sobre interesse sexual em fêmeas mamíferas. O grupo de pesquisa de Portillo & Paredes apurou que os ratos machos não copuladores apresentam baixa motivação sexual, enquanto os machos copuladores apresentam uma clara preferência pelas fêmeas sexualmente receptivas.
Segundo os estudiosos, estas deficiências podem ser causadas por alterações no sistema nervoso central. O conjunto de pesquisas estudadas pelos pesquisadores sugere que a falta de interesse por sexo no mundo animal tem um componente biológico importante que pode modificar o sistema nervoso central, e consequentemente, sua função.
Portillo & Paredes concluem afirmando que a assexualidade é uma dimensão da sexualidade, porém somente agora estão sendo realizadas pesquisas sobre a assexualidade humana de forma sistemática. Em outras espécies de mamíferos, também foi observada a existência de machos assexuais, o que sugere a existência de um componente biológico. Em roedores e carneiros não copuladores foram observadas alterações no sistema nervoso central. Para os autores, a sexualidade deve ser compreendida como um continnum, no qual, de um lado, existem sujeitos exclusivamente homossexuais, heterossexuais ou bissexuais; agora deve-se incluir aqueles que se identificam como assexuais. A pesquisa das bases biológicas e psicológicas da assexualidade e de outras orientações sexuais representa um amplo campo de estudo que nos permitirá uma melhor compreensão das complexidades da sexualidade, segundo os pesquisadores.

TEXTO COMENTADO

Portillo, W.; Paredes, R. Asexualidad. Revista Digital Universitaria. Volumen 12, Numero 3, 2011



Encaminho o link para a palestra sobre assexualidade proferida por mim no Instituto de Psicologia da USP no dia 06/08/12: http://www.youtube.com/watch?v=uF4iJahhQBI&list=UUFXt71mX_7dxwQua633KQrQ&index=1&feature=plcp
 
Prezados leitores/as,
Gostaria de agradecer de coração a todos/as aqueles/as que tão generosamente têm se oferecido para contribuir com a minha pesquisa sobre assexualidade, concedendo entrevistas, com toda confiança na seriedade desse trabalho.
Continuo com as entrevistas (pessoalmente e por e-mail)  caso alguém queira participar. Quem estiver interessado, por favor,  mande uma mensagem para  elisabete.regina.oliveira@usp.br . Os requisitos para participação são os seguintes: ter no mínimo 18 anos (ou autorização dos responsáveis para menores de 18 anos)  e se identificar como assexual/assexuado/a. Trata-se de uma pesquisa inédita no Brasil e colocará nosso país entre os pioneiros na produção de conhecimentos sobre a assexualidade no mundo. Conto com vocês. Obrigada!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Percepções sobre a assexualidade por pessoas não assexuais





O artigo sobre o qual falaremos hoje é um dos poucos artigos acadêmicos sobre assexualidade escritos em espanhol. De autoria do Professor Luis Álvarez Munárriz, catedrático de Antropologia Social da Universidade de Murcia, na Espanha, o trabalho apresenta reflexões sore assexualidade, bem como alguns resultados de entrevistas feitas por ele com o objetivo de conhecer um pouco mais sobre o que as pessoas pensam sobre esse tema.
Fiz um recorte dos temas do artigo para focar somente na pesquisa empírica feita pelo professor, bem como seus resultados e conclusões. Nesta pesquisa empírica, Munárriz conversou com diversos entrevistados, na universidade na qual leciona, para conhecer a percepção que estes tinham sobre a assexualidade, ou seja, como veem falta de desejo sexual na perspectiva da orientação sexual. No restante do artigo - que não será abordado nesta postagem - o antropólogo analisa algumas falas de assexuais em postagens na internet, analisado-as a partir de alguns referenciais teóricos da antropologia.
Primeiramente, Munárriz entrevistou, na própria universidade, 12 pessoas que não se consideram assexuais, com o objetivo de saber sua opinião sobre o conceito de assexualidade. Nesses contatos, o pesquisador deparou-se com diferentes visões, entre elas, pessoas incrédulas, que não acreditam que uma pessoa normal não sinta desejo sexual ou que não tenha fantasias sexuais. Uma informante declarou: “Não consigo imaginar uma jovem de 18 anos que seja assexual.”
Outro entrevistado disse: “Isso é contraditório porque todas as pessoas têm desejo sexual, isso é impossível!” Outro declarou: “Se a pessoa não faz sexo, fica ruim da cabeça!” Outro perguntou ao entrevistador, em tom irônico: “E você, é assexual? Tudo bem, ser assexual.” Uma entrevistada mostrou-se indiferente à pergunta e respondeu: “OK, e daí?”, afirmando, em seguida, que ignorava que existisse esse tipo de pessoa, mas que não era surpresa e que não tinha nenhum interesse ou preocupação com esse assunto. Um entrevistado homossexual respondeu: “Todas as condutas deveriam ser consideradas normais, eu acho que é positivo que os assexuais se sintam atraídos por outras pessoas, mas não tenham a necessidade de ter relação sexual.”
Nesta primeira aproximação, Munárriz constatou o enorme desconhecimento e estranhamento sobre a assexualidade que predomina sobre a população entrevistada, mas também uma tentativa de compreensão da assexualidade feita por um entrevistado pertencente a uma minoria sexual. Esse desconhecimento também foi constatado nos três grupos de discussão que ele realizou com estudantes universitários, com o mesmo objetivo, ou seja, saber o que pensam sobre o conceito de assexualidade. Um deles declarou:

A assexualidade e algo absurdo, impossível, já que a sexualidade está no ser humano. Só se a pessoa nasceu com um defeito genético, ou houve algum problema que inibiu seu desejo sexual, caso contrário é totalmente impossível a existência dessa orientação sexual. Eu acho que assexuais não existem.

Essas primeiras entrevistas serviram de base para que o antropólogo elaborasse um questionário simples, que tinha três objetivos: 1) calcular o percentual aproximado de assexuais entre os entrevistados; 2) saber o grau de conhecimento dessas pessoas sobre a assexualidade; e 3) obter uma definição aproximada de pessoa assexual.
Com esses objetivos, o estudioso aplicou o questionário a alunos de diferentes faculdades e campus da Universidade de Murcia. Recebeu 145 questionários respondidos, sendo 79 de mulheres e 66 de homens.
Uma das perguntas feitas pelo pesquisador era sobre a orientação sexual dos respondentes, incluindo as alternativas heterossexual, homossexual, bissexual e assexual. O objetivo dessa pergunta era saber se havia pessoas que se identificavam como assexuais entre os entrevistados. O resultado é que nenhum dos 145 respondentes se identificou como assexual em sentido estrito. Somente um respondente selecionou duas alternativas ao mesmo tempo: heterossexual e assexual. Todos os outros respondentes escolheram uma das outras três alternativas: heterossexual, ou homossexual ou bissexual. Esse resultado pode indicar o total desconhecimento da assexualidade como orientação sexual, ao menos como possibilidade de identificação.
Outra pergunta do questionário dizia respeito ao grau de conhecimento dos respondentes sobre a assexualidade. O resultado comprovou que existe um enorme desconhecimento sobre as pessoas assexuais, podendo isso ter reflexo nos resultados da primeira pergunta. A questão seguinte indagava sobre o grau de interesse dos respondentes pela atividade sexual. Como esperado, considerando que os respondentes eram todos jovens, a maioria revela ter muito interesse pela atividade sexual.
Em uma questão, Munárriz abordou a definição de assexualidade, a partir de duas perspectivas diferentes: a do desejo sexual e da resposta sexual, entendendo o desejo sexual como uma experiência subjetiva dos indivíduos e a resposta sexual como uma resposta biológica do corpo a um estímulo, também conhecida como libido. A esta pergunta, todos os entrevistados afirmaram possuir os dois, desejo e resposta. É altamente significativa a coerência que aparece nas respostas: todos os que têm desejo sexual também afirmam experimentar resposta do corpo a estímulos interpretados como sexuais. O pesquisador não fez nenhuma pergunta em relação à existência ou inexistência de atração sexual – que seria o direcionamento do desejo para outra pessoa - normalmente definida por muitos assexuais como característica de sua orientação sexual. Não está claro se ele compreende desejo e atração como sinônimos. Também não faz indagações sobre existência ou não de orientação afetiva, que também constitui uma parte importante da identidade assexual.
A última pergunta era aberta e indagava a opinião dos respondentes sobre a assexualidade. Um dos entrevistados respondeu da seguinte forma:

Acho que a sexualidade é parte fundamental do ser humano, é algo natural e permite a perpetuação da espécie. A assexualidade pode ter a ver com o medo, talvez o medo do desconhecido, medo dos riscos do sexo.

Em sua pesquisa nas comunidades assexuais na internet, Munárriz revela que não captou esse medo descrito por este respondente nos discursos dos assexuais, muito pelo contrário, os assexuais lhe pareceram bastante confiantes com a identificação como assexual. De qualquer modo, o resultado de sua pesquisa empírica mostra o quanto a assexualidade é desconhecida até mesmo por estudantes universitários, que têm acesso a tecnologias de informação e comunicação, que dirá da população geral que pode não ter esse acesso? E que implicações pode ter esse desconhecimento nas vidas daqueles e daquelas que se identificam como assexuais?
O pesquisador não fornece respostas claras aos objetivos formulados por ele na realização das entrevistas. Munárriz reconhece, no final do texto, as dificuldades em se reconhecer a assexualidade como uma orientação sexual, pois este reconhecimento significaria um grande abalo em tudo o que a ciência e a cultura construíram historicamente sobre sexualidade. Mas seu texto revela uma resistência muito grande por parte do pesquisador em perceber a assexualidade na perspectiva da orientação sexual. Para ele, não existe base suficiente para se aceitar a existência de uma nova identidade sexual e muito menos base para que a assexualidade possa se constituir no motor de uma verdadeira revolução sexual.

TEXTO COMENTADO
Munárriz, L. A. La identidad “asexual”. Gazeta de Antropologia, no. 26/2, 2010, Articulo 40

Prezados leitores, quem estiver interessado em contribuir com minha pesquisa sobre assexualidade concedendo entrevista (pessoalmente ou por e-mail), por favor,  mande uma mensagem para  elisabete.regina.oliveira@usp.br . Os requisitos para participação são os seguintes: ter no mínimo 18 anos (ou autorização dos responsáveis para menores de 18 anos)  e se identificar como assexual/assexuado/a. Trata-se de uma pesquisa inédita no Brasil e colocará nosso país entre os pioneiros na produção de conhecimentos sobre a assexualidade no mundo. Conto com vocês. Obrigada!
Matéria intitulada Trajetória de jovens assexuais é tema de doutorado na USP, que noticia esta pesquisa, feita pela Agência Universitária de Notícias, da USP: http://www.usp.br/aun/antigo/www/_reeng/materia.php?cod_materia=1205211

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Amebas em seu habitat: assexualidade, comunidade e identidade

O artigo sobre o qual trataremos nesta postagem foi escrito por C. J. Chasin, do Departamento de Psicologia da Universidade de Windsor, no Canadá. Além de pesquisador da assexualidade, Chasin é assexual, tendo iniciado suas pesquisas para satisfazer sua própria necessidade de autoidentificação. Por meio da abordagem ecológica, utilizada na psicologia das comunidades, o pesquisador discute as possibilidades de formação de identidade nas comunidades virtuais, tomando como exemplo a comunidade assexual AVEN (Asexual Visibility and Education Network). A AVEN é hoje não só a maior comunidade virtual assexual do mundo, mas também a maior fonte de informações e produtora de conhecimentos sobre assexualidade, constituindo respeitável fonte de referência para pesquisadores, a mídia, assexuais, suas famílias e amigos.

Considerando que somente uma porcentagem mínima da população é assexual, a probabilidade de contato face a face com outros assexuais é estatisticamente pequena. Portanto, a comunidade assexual é predominantemente virtual. Mas é bom lembrar que uma parte da população que poderia se identificar como assexual – a qual poderia sentir que o conceito de assexualidade descreve bem suas experiências – nunca ouviu falar de assexualidade, não tem acesso à internet, ou não percebe sua condição como passível de rotulação.

Uma rápida busca num dicionário mostra que a palavra comunidade é definida como grupo de pessoas com interesses, objetivos ou identidades comuns, ocupando um espaço compartilhado; esse espaço pode ser físico ou não. Uma comunidade precisa de algum elo de ligação entre seus membros, como por exemplo, experiências compartilhadas, apoio emocional ou a satisfação de necessidades específicas. Membros de comunidades têm uma experiência subjetiva de pertencimento, que os psicólogos chamam de senso de comunidade. Além disso, considerando que as pessoas têm múltiplas identidades e papéis – e participam de diversas comunidades - podem experimentar esse senso de comunidade de diferentes maneiras. Para compreender o que significa comunidade e o senso de comunidade, é importante compreender as circunstâncias da formação da comunidade, seu modo de funcionamento e seus propósitos.

Nos últimos anos, pesquisadores começaram a estudar o número crescente de comunidades virtuais. Essas comunidades diferem das comunidades tradicionais, não somente porque suas interações ocorrem estritamente através de meio textual, mas também porque são muito diferentes de outros tipos de interação social. Exemplo disso é a alta dose de anonimidade que fundamenta as interações virtuais. Até mesmo em comunidades virtuais muito ativas, somente um número pequeno de membros postam comentários; outros se mantêm como observadores passivos dos diálogos de outros usuários. Muitos desses observadores preferem buscar as informações que querem em discussões anteriormente postadas, ao invés de postar um novo tópico.

Embora alguns aspectos das comunidades reais – quando comparados com comunidades virtuais - sejam claramente diferentes, a formação de identidades coletivas nos dois tipos de comunidade ocorre de forma similar, segundo Chasin. Portanto, faz sentido abordar as comunidades virtuais considerando-as comunidades reais, como qualquer outra comunidade tradicional. Nos últimos anos, graças ao avanço das tecnologias de comunicação e informação, indivíduos antes isolados – como, por exemplo, idosos, pessoas com deficiências, pessoas pertencentes a minorias sexuais, entre outras – têm tido um canal de interação com pessoas em condições similares em comunidades virtuais na internet. Essas comunidades lhes proporcionam apoio emocional, bem como oportunidades de compartilhamento de experiências, como ocorre na AVEN.

Segundo Chasin, a perspectiva ecológica - abordagem empregada pela psicologia da comunidade -, basicamente defende que pessoas e ações existem e fazem sentido num contexto multidimensional, sendo este contexto delimitado a um período histórico e a uma cultura. Ao mesmo tempo, esse contexto é localmente único – mesmo contextos similares diferem entre si. Não existiriam as comunidades virtuais se não existisse a internet; portanto, o fenômeno das comunidades virtuais é fruto das inovações tecnológicas contemporâneas. A abordagem ecológica estabelece uma conceituação de pessoas e comportamentos com base em níveis múltiplos de análises, desde fatores socioculturais mais amplos até o nível de interação do indivíduo com seu ambiente. O foco dessa abordagem vai além da descrição das interações ou comportamentos, analisando também suas transformações.

Chasin argumenta que grande parte do senso de comunidade dentro da AVEN (e da comunidade assexual como um todo) surge como resultado de dois fatores. Em primeiro lugar, existe a desindentificação compartilhada pelos membros com a sexualidade presente no mundo sexualizado; em segundo, existe uma identificação positiva com as experiências relatadas por outros assexuais. Chasin conta que ficou chocado ao encontrar pela primeira vez uma comunidade virtual assexual, ao perceber que existiam outras pessoas que se sentiam como ele, adotando imediatamente a assexualidade como rótulo autodescritivo. Muitas pessoas que nunca construíram um pertencimento identitário com a sexualidade, ao deparar-se com as experiências relatadas pelos assexuais nas comunidades, podem sentir que encontraram seu lugar nessa categoria. Relatos que retratam esse encontro são bastante frequentes na AVEN.

Por outro lado, a AVEN – que define assexual como pessoa que não sente atração sexual -, deixa os visitantes livres para identificar-se ou não como assexuais, afirmando que somente a própria pessoa pode identificar-se como tal. Já que a comunidade assexual está fundamentada na solidariedade e nas experiências compartilhadas, então faz sentido que a decisão pela identificação seja do indivíduo. E também faz sentido que a participação comunitária seja fluida, considerando que as experiências mudam ao longo da vida.
Essa posição política da AVEN é importante, considerando que alguns sexólogos, convidados a debater a assexualidade na televisão americana, acusaram a AVEN de “convencer as pessoas que elas são assexuais, impedindo-as de buscar uma vida sexual saudável.” A AVEN deixa claro que não tem nenhum interesse em “converter” ninguém à assexualidade, insistindo que somente a pessoa pode se identificar como assexual. Essa posição sugere que os indivíduos sabem mais sobre si mesmos do que os sexólogos – ou qualquer outro profissional - o que obviamente provoca em sexólogos, psicólogos, psiquiatras e outros especialistas em sexualidade uma atitude ainda mais defensiva em relação à sua prática profissional. Para os “sexperts” torna-se interessante tentar “desmascarar” a assexualidade enquanto orientação sexual, mostrando que os assexuais não reconhecem o conhecimento acumulado historicamente sobre sexualidade.

Em 2008 – sete anos após sua fundação - A AVEN fez um levantamento entre seus membros para melhor conhecê-los. 1.216 pessoas reponderam ao questionário, revelando que 70% delas considera-se indiferente ao sexo; 42% identificou-se como hetero-assexual; 11%, como assexual gay; 23%, como bi-assexual e 14% como arromântico. Essa proliferação de autoidentificações mostra a vasta diversidade identitária dentro da comunidade, e também mostra que a comunidade está familiarizada com os conceitos e o vocabulário utilizados pela AVEN.

Os membros da AVEN criaram todo um novo vocabulário que tenta posicioná-los dentro do espectro entre a sexualidade e a assexualidade, bem como situá-los no contexto cultural mais amplo da heteronormatividade. A linguagem da assexualidade traz a ideia de que tudo existe ao longo de um espectro, a sexualidade humana é um continuum. As pessoas não são simplesmente sexuais ou assexuais, existe um continuum que vai de um extremo a outro. Portanto, a atração sexual pode existir em níveis diferentes, em diferentes fases da vida, em diferentes circunstâncias. Ou pode ser que a atração sexual não exista em nenhuma circunstância, para alguns; ou em raríssimas circunstâncias, para outros. A ideologia linguística da assexualidade sugere que o mesmo continuum está presente em todas as orientações sexuais. Nesta lógica, heterossexuais, bissexuais e homossexuais também teriam certa fluidez em relação ao seu objeto de atração, dependendo também das situações, da fase da vida, etc. Essa fluidez já tinha sido descrita por Alfred Kinsey em seus estudos sobre o comportamento sexual humano, nas décadas de 1940 e 1950, quando o sexólogo criou sua Escala de Comportamento Sexual. Referindo-se somente ao comportamento sexual, Kinsey trata somente de uma das dimensões da sexualidade; existem outras igualmente importantes, como a identidade, por exemplo.

Chasin destaca que a criação de um novo vocabulário, de um novo discurso sobre assexualidade nas comunidades virtuais está preparando o caminho para a visibilidade dos assexuais na sociedade mais ampla. Uma vez que esse vocabulário seja reconhecido, aceito e utilizado fora da comunidade, pavimenta-se o caminho para que a assexualidade seja compreendida e reconhecida como uma orientação sexual legítima.

TEXTO COMENTADO

Chasin, C. J. D. Amoeba in their habitat. The asexual community: an ecological and discursive perspective. Acessado em agosto/2011 em: http://www.asexualexplorations.net/

Agradeço aos leitores que com frequência me escrevem ou deixam comentários no sentido de colaborar com o Blog Assexualidades.

Informo sobre o lançamento do livro Minorias Sexuais – Direitos e Preconceitos, organizado pela Dra. Tereza Vieira, o qual inclui um artigo meu sobre assexualidade intitulado: "Assexualidade e Medicalização na mídia televisiva norte-americana."

O livro está disponível no site da Editora Consulex: : http://www.consulex.com.br/item.asp?id=1339



 
Lançamento do livro "Minorias Sexuais - Direitos e Preconceitos", na Livraria Cultura, em São Paulo, no dia 05/06/12.


Divulgo a matéria sobre assexualidade que foi ao ar em 03/04/12 no Jornal da Cultura, com uma participação minha. A matéria começa em 5min 15seg:   http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=HEoDrjf_QJo

sábado, 31 de março de 2012

Crise e segurança: o assexual na sexo-sociedade

Hoje falaremos sobre um artigo teórico da pesquisadora Ela Przybylo, da área de Estudos Feministas da Universidade de Alberta, no Canadá. Em seu trabalho, a pesquisadora se pergunta: de que modo a recente visibilidade da assexualidade - como categoria identitária emergente no ocidente - impacta os postulados históricos construídos e naturalizados sobre sexualidade?

A partir de teorias feministas e pós-modernas, a pesquisadora situa a assexualidade simultaneamente como produto da contemporaneidade e também como reação contra o que ela chama de sexo-sociedade. Para ela, sexo-sociedade é a sociedade “sexual” que estabelece os princípios de normalidade das condutas sexuais. Com a criação da palavra sexo-sociedade, a pesquisadora pretende mostrar textualmente a onipresença diluída da sexualidade em nosso mundo contemporâneo ocidental, chamando a atenção para o papel central que o sexo e a sexualidade desempenham em nossa sociedade; a sexo-sociedade está em todo lugar, está dentro de nós, nós somos a sexo-sociedade.
Na sexo-sociedade todo mundo tem que fazer sexo, não só com determinada frequência, mas também é obrigatório que seja imensamente prazeroso, tem que ter orgasmo; é imperativo que haja o coito, ou seja, o sexo heterossexual, cujo objetivo é a penetração da vagina pelo pênis. Nesse contexto, preliminares não contam como sexo; só a penetração é sexo. Vivemos sob a “nova tirania do prazer orgásmico.”
A assexualidade, como sabemos, não se enquadra nas regras da sexo-sociedade. Para Przybylo, a assexualidade está para a sexo-sociedade da mesma forma que o feminismo está para o patriarcado e o movimento LGBT está para a heteronormatividade, no sentido de que o patriarcado e a heteronormatividade constituem forças opressoras contra as quais é preciso se rebelar. Porém, diferentemente do patriarcado e da heteronormatividade, a sexo-sociedade não possui uma representação clara e monolítica. Este “adversário” está diluído, disperso, espalhado, incoerente; apesar disso, organiza-se em torno do pressuposto da sexualidade compulsória.
Nesse sentido, diversas patologias são atribuídas às pessoas que não praticam o sexo. O Manual Estatístico e Diagnóstico de Distúrbios Mentais (DSM) - publicado pela Associação Americana de Psiquiatria – lista os seguintes transtornos sexuais sofridos pelas mulheres: transtorno do desejo sexual hipoativo, transtorno da aversão sexual, transtorno de excitação, anorgasmia, dispareunia e vaginismo, ou seja, uma proliferação de transtornos que servem para confirmar o imperativo do sexo compulsório. A abundância de transtornos sexuais servem os propósitos da sexo-sociedade. Considerando o pressuposto do sexo como força da natureza, a sexo-sociedade equipara a necessidade sexual a outras necessidades biológicas como o alimento e o sono, patologizando qualquer perturbação nessa função.
De algum modo, a falta de “impulso sexual” torna-se mais problemática do que seu excesso. A pesquisadora lembra que, enquanto os transtornos que diminuem o desejo sexual foram incluídos sem questionamento no manual, foi preciso muita negociação para a inclusão dos transtornos ligados excesso de desejo. Excesso não é problema; o problema é a falta. O DSM também é uma produção social, sujeita aos mesmos princípios de sexualidade e relações de gênero presentes na sexo-sociedade.
Os assexuais têm sido convidados a “confessar” detalhes de sua assexualidade em programas de rádio e televisão nos Estados Unidos. Para o filósofo francês Michel Foucault, a confissão é um mecanismo utilizado não somente para a “produção” da verdade, mas também para a “correção.” Por meio da confissão unilateral de nossos sentimentos mais íntimos para os outros – sejam eles amigos, psiquiatras, psicólogos, médicos, professores, padres, repórteres – não só fornecemos detalhes pessoais de nossa vida para o consumo alheio, mas também verificamos o quanto nosso comportamento está em conformidade com o que é considerado normativo.
Nessas aparições na mídia, os assexuais são confrontados com perguntas íntimas de apresentadores, da plateia, de ouvintes por telefone e também de terapeutas sexuais convidados a dar sua opinião de especialista. Em um dos programas de televisão, as apresentadoras bombardearam David Jay (fundador da AVEN – Asexual Visibility and Education Network) com todo tipo de pergunta sobre sua intimidade assexual, sempre mostrando seu ceticismo em relação à assexualidade. À medida que recebiam as respostas do entrevistado, passavam a interpretar e decifrar a “verdade assexual” que supostamente estaria escondida no interior dessas respostas. Os interrogatórios enfrentados por David Jay em diversos programas de televisão exemplificam a afirmação de Foucault de que “o homem ocidental tornou-se um animal confessional.” Mas se ele não faz sexo, o que tem para confessar? Parece que a ausência de alguma coisa para se confessar também tem que ser confessada. O sexo, assim como sua ausência, tem que ser confessado.
Przybylo destaca que a reação incrédula dos apresentadores de TV ao conceito de assexualidade talvez seja porque sua principal característica, a falta, expõe o próprio vazio da sexualidade. A assexualidade, como espaço marginal que se coloca do lado de fora da sexualidade, torna-se uma ameaça à sexualidade. Sugere que a sexualidade seja apenas uma casca que esconde seu verdadeiro interior: a ausência. A assexualidade revelaria o fantasma do projeto sexual, mostrando que o “natural” pode não passar de imitação.
No livro Simulacros e Simulação, publicado em 1981, o filósofo francês Jean Baudrillard fala de uma “era da simulação” na qual todos os referenciais são eliminados e recriados artificialmente em sistemas de signos e representações, cuja função é substituir o real. A função dessa representação é obscurecer o fato de que não existe nada real que dê sustentação a ela; são representações ocas e flutuantes. Este livro de Baudrillard aparece no filme A Matriz, como o livro no qual o personagem Neo guardava seus programas de computador; o livro tem muito a ver com o enredo do filme. Como diz Baudrillard em seu livro: “simular é fingir que se tem alguma coisa que não se tem... uma ausência, mas que deixa intacto o princípio da realidade; a diferença é sempre clara, mas está mascarada... a simulação ameaça a diferença entre ‘verdadeiro’ e ‘falso’, entre ‘real’ e ‘imaginário’.”
A partir da leitura de Baudrillard, Przybylo se pergunta: é possível que a inviabilização e a patologização da assexualidade pela sexo-sociedade seja um sintoma do medo que surge a partir da compreensão de que a sexualidade está morta, passada, ausente? Em outras palavras, em que medida a ausência revelada pela assexualidade pode ser um diagnóstico do estado da sexo-sociedade – mostrando que a sexualidade está ausente, e que essa circulação compulsiva do diálogo e representação sexual é somente uma simulação? Para Baudrillard, a saturação da sexualidade na sexo-sociedade é indicativa, em parte, de sua ausência. A hiper-realidade e a onipresença da sexualidade podem ser entendidas como simulação, como uma referência sem referente.

A afirmação de Baudrillard de que a sexualidade está morta permite uma leitura fascinante do fenômeno da assexualidade. Mesmo assim, Przybylo prefere acreditar que a assexualidade não é uma força ameaçadora, mas sim uma força estabilizadora da sexualidade, pois gera novos discursos sobre a sexualidade. Esses discursos tornam a sexu-sociedade defensora da sexualidade contra a ameaça potencial da assexualidade. A assexualidade nos força a uma reconexão com a sexualidade, portanto fortalecendo a sexo-sociedade.

Nesta postagem comentei somente partes do artigo de Przybylo, o texto é bastante fértil. Ela faz outras análises da assexualidade com base em Judith Butler, Wendy Brown, entre outros teóricos da pós-modernidade, os quais, espero retomar oportunamente, pois auxiliam imensamente na compreensão deste fenômeno da contemporaneidade.

TEXTO COMENTADO
PRZYBYLO, Ela. Crisis and safety: the asexual in sexusociety. Sexualities, 2011, 14(4), p. 444-461

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Assexualidade e poliamor: o que esses dois conceitos têm em comum?

Poliamor: refere-se a relacionamentos românticos com mais de uma pessoa, de forma honesta e ética, com o conhecimento e consentimento de todas as partes envolvidas. (Site Loving More http://www.lovemore.com/faq.php#wip )

Hoje falaremos sobre um artigo intrigante escrito pela socióloga Kristin Scherrer, cujo trabalho sobre assexualidade temos discutido em postagens anteriores. Neste artigo, publicado em um livro que trata de relações não monogâmicas, a socióloga desafia o leitor a refletir sobre as intersecções entre assexualidade e poliamor. O que será que uma orientação sexual baseada na falta de interesse por sexo pode ter em comum com um estilo de vida que pressupõe múltiplos relacionamentos afetivo-sexuais? Sendo a poligamia a característica principal dos relacionamentos poliamorosos, qual o significado da monogamia para os assexuais?
Duas constatações levaram Scherrer a estabelecer a relação entre assexualidade e poliamor. Em primeiro lugar, para ela, a assexualidade, mais do que qualquer outra orientação sexual, pode contribuir de modo singular para a compreensão de relacionamentos não fundamentados no sexo. Segundo, o foco principal do poliamor é o relacionamento romântico, não o sexual; o sexo surge como consequência do amor (diferente do swing, cujo foco é a interação sexual). Portanto, a assexualidade e o poliamor têm em comum a priorização do relacionamento romântico e não do relacionamento sexual.
Como já discutimos em outras postagens, a identidade romântica ou arromântica é muito importante para os assexuais, pois determina o interesse (ou desinteresse) em relacionamentos românticos. Scherrer acredita que uma identidade baseada na falta de interesse sexual é determinante no modo como os indivíduos constroem seus relacionamentos; esse é o ponto que ela pretende explorar neste artigo.
A socióloga observou intersecções entre assexualidade e poliamor ao analisar entrevistas feitas por ela com assexuais da AVEN. Quando solicitados a descrever qual seria o relacionamento ideal para si, muitos assexuais listaram algumas características semelhantes às dos relacionamentos poliamorosos. As três perguntas feitas pela pesquisadora aos assexuais foram as seguintes: 1) Como você diferencia relacionamento íntimo, amizade e parceria romântica? 2) Como seria um relacionamento ideal para você? 3) Você tem interesse em relacionamentos monogâmicos?
Geralmente, a existência ou inexistência de atividade sexual num relacionamento é o que diferencia amizade de romance. Essa característica dos relacionamentos no mundo “sexual” traz grandes desafios aos indivíduos assexuais para definição de seus relacionamentos, considerando que muitos desejam um relacionamento romântico no qual o sexo não esteja incluído. Torna-se difícil compreender a diferença entre romance e amizade.
Uma das entrevistadas de Scherrer afirmou que, para ela, relacionamento íntimo e parceria romântica é a mesma coisa, e significa que “a pessoa está disposta a algum grau de contato sexual, desde um beijo até intercurso.” Para esta entrevistada, amigos são pessoas que compartilham os mesmos interesses, sendo irrelevante o sexo dos envolvidos. Portanto, existe diferença entre amizade e romance. Outra entrevistada faz uma distinção entre relacionamento íntimo de parceria romântica. A descrição desta entrevistada abre um espaço para relacionamentos “mais profundos” emocionalmente do que amizades, mas que não necessariamente envolvem comportamento sexual:
Eu diria que os relacionamentos íntimos envolvem beijo e atividade sexual. Para mim, é difícil diferenciar amizade de parceria romântica. Acho que uma parceria romântica é mais física; deve ter mais confiança do que na amizade. Acho que as amizades têm mais brincadeiras e bate-papo; as parcerias românticas têm tudo isso e também discussões num nível mais profundo.
Dois outros entrevistados mostraram que a diferença entre relacionamento íntimo, amizade e parceria romântica pode ser muito mais complexa do que se pensa. Um deles respondeu que a diferença é apenas da linguagem, uma vez que estas expressões são utilizadas para categorizar relacionamentos baseados na sexualidade, mas não são úteis ou precisas para descrever os relacionamentos assexuais. Outra entrevistada acredita que amizade e romance são extremidades de um spectrum; diferentes relacionamentos podem ser localizados em qualquer ponto entre os dois polos.
Os problemas colocados pelos entrevistados na diferenciação dos termos propostos mostram como é difícil categorizar os relacionamentos assexuais utilizando os critérios utilizados em sexualidade; até mesmo as palavras existentes estão carregadas de significados que não fazem sentido para os assexuais.
Para alguns entrevistados que mostraram interesse em relacionamentos românticos ou íntimos, a monogamia é considerada importante. Esses três depoimentos são de mulheres assexuais:
Eu imagino uma relação ideal como heterossexual e monogâmica.
Eu desejo um relacionamento profundo e monogâmico com um homem, mas não desejo fazer sexo nem com ele, nem com ninguém.
Eu desejo um relacionamento íntimo e monogâmico, contanto que seja não sexual.
Scherrer observa que para alguns assexuais entrevistados é difícil pensar em monogamia fora do contexto sexual. Portanto, será que faz sentido falar em monogamia para os relacionamentos assexuais? Vejamos o que diz um jovem entrevistado:
Eu posso ter diversos relacionamentos íntimos, e isso não será considerado “traição”. Se esses relacionamentos fossem monogâmicos, então, eu teria que restringir minhas amizades com outras pessoas.
Esse depoimento nos leva a questionar se a monogamia é um conceito que só faz sentido para pessoas não assexuais. Quando se fala em “traição” num relacionamento não assexual, normalmente está-se falando da quebra de um pacto de fidelidade que tem como principal elemento a exclusividade sexual.
Enquanto a monogamia parece ser importante para alguns entrevistados, outros descrevem seus interesses românticos e relacionais de modo mais semelhante às experiências não monogâmicas de membros do poliamor. Quando perguntado sobre qual seria seu relacionamento ideal, um jovem assexual respondeu da seguinte forma:
Eu tenho interesse por relacionamentos íntimos. Poderia ser monogâmico, ou um relacionamento grupal (um relacionamento único com várias pessoas que se dedicam umas às outras, ao invés de relacionamentos múltiplos no qual os membros se relacionam dois a dois). Eu adoraria um relacionamento no qual todos os participantes fizessem parte do relacionamento como um todo.
Embora este entrevistado não utilize a palavra poliamor para descrever seu relacionamento ideal, sua descrição se aproxima do conceito de poliamor, conforme membros deste estio de vida.
Alguns entrevistados mostram-se interessados em um relacionamento poliamor, como alternativa a um relacionamento assexual monogâmico (considerando a pequena probabilidade de se encontrar um parceiro assexual para um relacionamento, ou de se encontrar um parceiro não assexual que aceite a monogamia). Não que o poliamor seja o tipo de relacionamento ideal para esses entrevistados, mas é uma opção mais viável. Aliás, o percentual de assexuais que aceitariam uma relação não monogâmica é bastante alto, possivelmente mais alto do que entre os não assexuais. Uma das entrevistadas coloca dessa forma:
Eu desejo um relacionamento monogâmico, socialmente falando. Eu não ligo para sexo, mas se meu parceiro quiser que eu faça sexo com ele, eu exigiria que ele fosse sexualmente monogâmico. Mas, se ele concordar em fazer sexo com outras pessoas, para mim, tudo bem, também.
Outra entrevistada descreve seu relacionamento ideal como “vários amigos morando juntos na mesma casa, amigos que se dediquem uns aos outros, numa relação poliamorosa.”
Scherrer conclui seu artigo ressaltando a importância da inclusão dos assexuais nas pesquisas sobre poliamor e também do estudo mais aprofundado sobre a monogamia fora do contexto dos relacionamentos afetivo-sexuais. Outro aspecto importante para estudo é o do spectrum existente entre as categorias amizade e romance, considerando que as categorias existentes não contemplam essas nuances.

TEXTO COMENTADO
Scherrer, Kristin S. Asexual relationships: what does asexuality have to do with polyamory? In: Barker, M.; Langdridge, D. Understanding non-monogamies. New York: Routledge, 2010, pages 154-159