sábado, 31 de março de 2012

Crise e segurança: o assexual na sexo-sociedade

Hoje falaremos sobre um artigo teórico da pesquisadora Ela Przybylo, da área de Estudos Feministas da Universidade de Alberta, no Canadá. Em seu trabalho, a pesquisadora se pergunta: de que modo a recente visibilidade da assexualidade - como categoria identitária emergente no ocidente - impacta os postulados históricos construídos e naturalizados sobre sexualidade?

A partir de teorias feministas e pós-modernas, a pesquisadora situa a assexualidade simultaneamente como produto da contemporaneidade e também como reação contra o que ela chama de sexo-sociedade. Para ela, sexo-sociedade é a sociedade “sexual” que estabelece os princípios de normalidade das condutas sexuais. Com a criação da palavra sexo-sociedade, a pesquisadora pretende mostrar textualmente a onipresença diluída da sexualidade em nosso mundo contemporâneo ocidental, chamando a atenção para o papel central que o sexo e a sexualidade desempenham em nossa sociedade; a sexo-sociedade está em todo lugar, está dentro de nós, nós somos a sexo-sociedade.
Na sexo-sociedade todo mundo tem que fazer sexo, não só com determinada frequência, mas também é obrigatório que seja imensamente prazeroso, tem que ter orgasmo; é imperativo que haja o coito, ou seja, o sexo heterossexual, cujo objetivo é a penetração da vagina pelo pênis. Nesse contexto, preliminares não contam como sexo; só a penetração é sexo. Vivemos sob a “nova tirania do prazer orgásmico.”
A assexualidade, como sabemos, não se enquadra nas regras da sexo-sociedade. Para Przybylo, a assexualidade está para a sexo-sociedade da mesma forma que o feminismo está para o patriarcado e o movimento LGBT está para a heteronormatividade, no sentido de que o patriarcado e a heteronormatividade constituem forças opressoras contra as quais é preciso se rebelar. Porém, diferentemente do patriarcado e da heteronormatividade, a sexo-sociedade não possui uma representação clara e monolítica. Este “adversário” está diluído, disperso, espalhado, incoerente; apesar disso, organiza-se em torno do pressuposto da sexualidade compulsória.
Nesse sentido, diversas patologias são atribuídas às pessoas que não praticam o sexo. O Manual Estatístico e Diagnóstico de Distúrbios Mentais (DSM) - publicado pela Associação Americana de Psiquiatria – lista os seguintes transtornos sexuais sofridos pelas mulheres: transtorno do desejo sexual hipoativo, transtorno da aversão sexual, transtorno de excitação, anorgasmia, dispareunia e vaginismo, ou seja, uma proliferação de transtornos que servem para confirmar o imperativo do sexo compulsório. A abundância de transtornos sexuais servem os propósitos da sexo-sociedade. Considerando o pressuposto do sexo como força da natureza, a sexo-sociedade equipara a necessidade sexual a outras necessidades biológicas como o alimento e o sono, patologizando qualquer perturbação nessa função.
De algum modo, a falta de “impulso sexual” torna-se mais problemática do que seu excesso. A pesquisadora lembra que, enquanto os transtornos que diminuem o desejo sexual foram incluídos sem questionamento no manual, foi preciso muita negociação para a inclusão dos transtornos ligados excesso de desejo. Excesso não é problema; o problema é a falta. O DSM também é uma produção social, sujeita aos mesmos princípios de sexualidade e relações de gênero presentes na sexo-sociedade.
Os assexuais têm sido convidados a “confessar” detalhes de sua assexualidade em programas de rádio e televisão nos Estados Unidos. Para o filósofo francês Michel Foucault, a confissão é um mecanismo utilizado não somente para a “produção” da verdade, mas também para a “correção.” Por meio da confissão unilateral de nossos sentimentos mais íntimos para os outros – sejam eles amigos, psiquiatras, psicólogos, médicos, professores, padres, repórteres – não só fornecemos detalhes pessoais de nossa vida para o consumo alheio, mas também verificamos o quanto nosso comportamento está em conformidade com o que é considerado normativo.
Nessas aparições na mídia, os assexuais são confrontados com perguntas íntimas de apresentadores, da plateia, de ouvintes por telefone e também de terapeutas sexuais convidados a dar sua opinião de especialista. Em um dos programas de televisão, as apresentadoras bombardearam David Jay (fundador da AVEN – Asexual Visibility and Education Network) com todo tipo de pergunta sobre sua intimidade assexual, sempre mostrando seu ceticismo em relação à assexualidade. À medida que recebiam as respostas do entrevistado, passavam a interpretar e decifrar a “verdade assexual” que supostamente estaria escondida no interior dessas respostas. Os interrogatórios enfrentados por David Jay em diversos programas de televisão exemplificam a afirmação de Foucault de que “o homem ocidental tornou-se um animal confessional.” Mas se ele não faz sexo, o que tem para confessar? Parece que a ausência de alguma coisa para se confessar também tem que ser confessada. O sexo, assim como sua ausência, tem que ser confessado.
Przybylo destaca que a reação incrédula dos apresentadores de TV ao conceito de assexualidade talvez seja porque sua principal característica, a falta, expõe o próprio vazio da sexualidade. A assexualidade, como espaço marginal que se coloca do lado de fora da sexualidade, torna-se uma ameaça à sexualidade. Sugere que a sexualidade seja apenas uma casca que esconde seu verdadeiro interior: a ausência. A assexualidade revelaria o fantasma do projeto sexual, mostrando que o “natural” pode não passar de imitação.
No livro Simulacros e Simulação, publicado em 1981, o filósofo francês Jean Baudrillard fala de uma “era da simulação” na qual todos os referenciais são eliminados e recriados artificialmente em sistemas de signos e representações, cuja função é substituir o real. A função dessa representação é obscurecer o fato de que não existe nada real que dê sustentação a ela; são representações ocas e flutuantes. Este livro de Baudrillard aparece no filme A Matriz, como o livro no qual o personagem Neo guardava seus programas de computador; o livro tem muito a ver com o enredo do filme. Como diz Baudrillard em seu livro: “simular é fingir que se tem alguma coisa que não se tem... uma ausência, mas que deixa intacto o princípio da realidade; a diferença é sempre clara, mas está mascarada... a simulação ameaça a diferença entre ‘verdadeiro’ e ‘falso’, entre ‘real’ e ‘imaginário’.”
A partir da leitura de Baudrillard, Przybylo se pergunta: é possível que a inviabilização e a patologização da assexualidade pela sexo-sociedade seja um sintoma do medo que surge a partir da compreensão de que a sexualidade está morta, passada, ausente? Em outras palavras, em que medida a ausência revelada pela assexualidade pode ser um diagnóstico do estado da sexo-sociedade – mostrando que a sexualidade está ausente, e que essa circulação compulsiva do diálogo e representação sexual é somente uma simulação? Para Baudrillard, a saturação da sexualidade na sexo-sociedade é indicativa, em parte, de sua ausência. A hiper-realidade e a onipresença da sexualidade podem ser entendidas como simulação, como uma referência sem referente.

A afirmação de Baudrillard de que a sexualidade está morta permite uma leitura fascinante do fenômeno da assexualidade. Mesmo assim, Przybylo prefere acreditar que a assexualidade não é uma força ameaçadora, mas sim uma força estabilizadora da sexualidade, pois gera novos discursos sobre a sexualidade. Esses discursos tornam a sexu-sociedade defensora da sexualidade contra a ameaça potencial da assexualidade. A assexualidade nos força a uma reconexão com a sexualidade, portanto fortalecendo a sexo-sociedade.

Nesta postagem comentei somente partes do artigo de Przybylo, o texto é bastante fértil. Ela faz outras análises da assexualidade com base em Judith Butler, Wendy Brown, entre outros teóricos da pós-modernidade, os quais, espero retomar oportunamente, pois auxiliam imensamente na compreensão deste fenômeno da contemporaneidade.

TEXTO COMENTADO
PRZYBYLO, Ela. Crisis and safety: the asexual in sexusociety. Sexualities, 2011, 14(4), p. 444-461