segunda-feira, 30 de abril de 2012

Amebas em seu habitat: assexualidade, comunidade e identidade

O artigo sobre o qual trataremos nesta postagem foi escrito por C. J. Chasin, do Departamento de Psicologia da Universidade de Windsor, no Canadá. Além de pesquisador da assexualidade, Chasin é assexual, tendo iniciado suas pesquisas para satisfazer sua própria necessidade de autoidentificação. Por meio da abordagem ecológica, utilizada na psicologia das comunidades, o pesquisador discute as possibilidades de formação de identidade nas comunidades virtuais, tomando como exemplo a comunidade assexual AVEN (Asexual Visibility and Education Network). A AVEN é hoje não só a maior comunidade virtual assexual do mundo, mas também a maior fonte de informações e produtora de conhecimentos sobre assexualidade, constituindo respeitável fonte de referência para pesquisadores, a mídia, assexuais, suas famílias e amigos.

Considerando que somente uma porcentagem mínima da população é assexual, a probabilidade de contato face a face com outros assexuais é estatisticamente pequena. Portanto, a comunidade assexual é predominantemente virtual. Mas é bom lembrar que uma parte da população que poderia se identificar como assexual – a qual poderia sentir que o conceito de assexualidade descreve bem suas experiências – nunca ouviu falar de assexualidade, não tem acesso à internet, ou não percebe sua condição como passível de rotulação.

Uma rápida busca num dicionário mostra que a palavra comunidade é definida como grupo de pessoas com interesses, objetivos ou identidades comuns, ocupando um espaço compartilhado; esse espaço pode ser físico ou não. Uma comunidade precisa de algum elo de ligação entre seus membros, como por exemplo, experiências compartilhadas, apoio emocional ou a satisfação de necessidades específicas. Membros de comunidades têm uma experiência subjetiva de pertencimento, que os psicólogos chamam de senso de comunidade. Além disso, considerando que as pessoas têm múltiplas identidades e papéis – e participam de diversas comunidades - podem experimentar esse senso de comunidade de diferentes maneiras. Para compreender o que significa comunidade e o senso de comunidade, é importante compreender as circunstâncias da formação da comunidade, seu modo de funcionamento e seus propósitos.

Nos últimos anos, pesquisadores começaram a estudar o número crescente de comunidades virtuais. Essas comunidades diferem das comunidades tradicionais, não somente porque suas interações ocorrem estritamente através de meio textual, mas também porque são muito diferentes de outros tipos de interação social. Exemplo disso é a alta dose de anonimidade que fundamenta as interações virtuais. Até mesmo em comunidades virtuais muito ativas, somente um número pequeno de membros postam comentários; outros se mantêm como observadores passivos dos diálogos de outros usuários. Muitos desses observadores preferem buscar as informações que querem em discussões anteriormente postadas, ao invés de postar um novo tópico.

Embora alguns aspectos das comunidades reais – quando comparados com comunidades virtuais - sejam claramente diferentes, a formação de identidades coletivas nos dois tipos de comunidade ocorre de forma similar, segundo Chasin. Portanto, faz sentido abordar as comunidades virtuais considerando-as comunidades reais, como qualquer outra comunidade tradicional. Nos últimos anos, graças ao avanço das tecnologias de comunicação e informação, indivíduos antes isolados – como, por exemplo, idosos, pessoas com deficiências, pessoas pertencentes a minorias sexuais, entre outras – têm tido um canal de interação com pessoas em condições similares em comunidades virtuais na internet. Essas comunidades lhes proporcionam apoio emocional, bem como oportunidades de compartilhamento de experiências, como ocorre na AVEN.

Segundo Chasin, a perspectiva ecológica - abordagem empregada pela psicologia da comunidade -, basicamente defende que pessoas e ações existem e fazem sentido num contexto multidimensional, sendo este contexto delimitado a um período histórico e a uma cultura. Ao mesmo tempo, esse contexto é localmente único – mesmo contextos similares diferem entre si. Não existiriam as comunidades virtuais se não existisse a internet; portanto, o fenômeno das comunidades virtuais é fruto das inovações tecnológicas contemporâneas. A abordagem ecológica estabelece uma conceituação de pessoas e comportamentos com base em níveis múltiplos de análises, desde fatores socioculturais mais amplos até o nível de interação do indivíduo com seu ambiente. O foco dessa abordagem vai além da descrição das interações ou comportamentos, analisando também suas transformações.

Chasin argumenta que grande parte do senso de comunidade dentro da AVEN (e da comunidade assexual como um todo) surge como resultado de dois fatores. Em primeiro lugar, existe a desindentificação compartilhada pelos membros com a sexualidade presente no mundo sexualizado; em segundo, existe uma identificação positiva com as experiências relatadas por outros assexuais. Chasin conta que ficou chocado ao encontrar pela primeira vez uma comunidade virtual assexual, ao perceber que existiam outras pessoas que se sentiam como ele, adotando imediatamente a assexualidade como rótulo autodescritivo. Muitas pessoas que nunca construíram um pertencimento identitário com a sexualidade, ao deparar-se com as experiências relatadas pelos assexuais nas comunidades, podem sentir que encontraram seu lugar nessa categoria. Relatos que retratam esse encontro são bastante frequentes na AVEN.

Por outro lado, a AVEN – que define assexual como pessoa que não sente atração sexual -, deixa os visitantes livres para identificar-se ou não como assexuais, afirmando que somente a própria pessoa pode identificar-se como tal. Já que a comunidade assexual está fundamentada na solidariedade e nas experiências compartilhadas, então faz sentido que a decisão pela identificação seja do indivíduo. E também faz sentido que a participação comunitária seja fluida, considerando que as experiências mudam ao longo da vida.
Essa posição política da AVEN é importante, considerando que alguns sexólogos, convidados a debater a assexualidade na televisão americana, acusaram a AVEN de “convencer as pessoas que elas são assexuais, impedindo-as de buscar uma vida sexual saudável.” A AVEN deixa claro que não tem nenhum interesse em “converter” ninguém à assexualidade, insistindo que somente a pessoa pode se identificar como assexual. Essa posição sugere que os indivíduos sabem mais sobre si mesmos do que os sexólogos – ou qualquer outro profissional - o que obviamente provoca em sexólogos, psicólogos, psiquiatras e outros especialistas em sexualidade uma atitude ainda mais defensiva em relação à sua prática profissional. Para os “sexperts” torna-se interessante tentar “desmascarar” a assexualidade enquanto orientação sexual, mostrando que os assexuais não reconhecem o conhecimento acumulado historicamente sobre sexualidade.

Em 2008 – sete anos após sua fundação - A AVEN fez um levantamento entre seus membros para melhor conhecê-los. 1.216 pessoas reponderam ao questionário, revelando que 70% delas considera-se indiferente ao sexo; 42% identificou-se como hetero-assexual; 11%, como assexual gay; 23%, como bi-assexual e 14% como arromântico. Essa proliferação de autoidentificações mostra a vasta diversidade identitária dentro da comunidade, e também mostra que a comunidade está familiarizada com os conceitos e o vocabulário utilizados pela AVEN.

Os membros da AVEN criaram todo um novo vocabulário que tenta posicioná-los dentro do espectro entre a sexualidade e a assexualidade, bem como situá-los no contexto cultural mais amplo da heteronormatividade. A linguagem da assexualidade traz a ideia de que tudo existe ao longo de um espectro, a sexualidade humana é um continuum. As pessoas não são simplesmente sexuais ou assexuais, existe um continuum que vai de um extremo a outro. Portanto, a atração sexual pode existir em níveis diferentes, em diferentes fases da vida, em diferentes circunstâncias. Ou pode ser que a atração sexual não exista em nenhuma circunstância, para alguns; ou em raríssimas circunstâncias, para outros. A ideologia linguística da assexualidade sugere que o mesmo continuum está presente em todas as orientações sexuais. Nesta lógica, heterossexuais, bissexuais e homossexuais também teriam certa fluidez em relação ao seu objeto de atração, dependendo também das situações, da fase da vida, etc. Essa fluidez já tinha sido descrita por Alfred Kinsey em seus estudos sobre o comportamento sexual humano, nas décadas de 1940 e 1950, quando o sexólogo criou sua Escala de Comportamento Sexual. Referindo-se somente ao comportamento sexual, Kinsey trata somente de uma das dimensões da sexualidade; existem outras igualmente importantes, como a identidade, por exemplo.

Chasin destaca que a criação de um novo vocabulário, de um novo discurso sobre assexualidade nas comunidades virtuais está preparando o caminho para a visibilidade dos assexuais na sociedade mais ampla. Uma vez que esse vocabulário seja reconhecido, aceito e utilizado fora da comunidade, pavimenta-se o caminho para que a assexualidade seja compreendida e reconhecida como uma orientação sexual legítima.

TEXTO COMENTADO

Chasin, C. J. D. Amoeba in their habitat. The asexual community: an ecological and discursive perspective. Acessado em agosto/2011 em: http://www.asexualexplorations.net/

Agradeço aos leitores que com frequência me escrevem ou deixam comentários no sentido de colaborar com o Blog Assexualidades.

Informo sobre o lançamento do livro Minorias Sexuais – Direitos e Preconceitos, organizado pela Dra. Tereza Vieira, o qual inclui um artigo meu sobre assexualidade intitulado: "Assexualidade e Medicalização na mídia televisiva norte-americana."

O livro está disponível no site da Editora Consulex: : http://www.consulex.com.br/item.asp?id=1339



 
Lançamento do livro "Minorias Sexuais - Direitos e Preconceitos", na Livraria Cultura, em São Paulo, no dia 05/06/12.


Divulgo a matéria sobre assexualidade que foi ao ar em 03/04/12 no Jornal da Cultura, com uma participação minha. A matéria começa em 5min 15seg:   http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=HEoDrjf_QJo

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