segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Não somos todos iguais: entrevista concedida à Revista Metrópole

Recentemente concedi uma entrevista sobre assexualidade à Revista Metrópole, do Jornal Correio Popular de Campinas.  Publico abaixo a entrevista completa, que pode ser de interesse dos/as leitores/as do Blog.
Gostaria, em primeiro lugar, de saber como está sua tese de doutorado sobre assexuais? Aliás, tanto faz usar o termo assexuais ou assexuadas?
Minha pesquisa de doutorado - que busca conhecer as trajetórias de pessoas assexuais no processo de autoidentificação como tal – está na fase das entrevistas com pessoas autoidentificadas como assexuais. As entrevistas serão analisadas à luz de bibliografia teórica pertinente. A pesquisa está sendo feita na Faculdade de Educação da USP, na linha de pesquisa Sociologia da Educação.
Nas comunidades virtuais brasileiras, a palavra mais utilizada é assexuado/a. Fiz opção pelo uso da palavra assexual por ser a palavra já utilizada na literatura internacional sobre o tema. Além disso, como a perspectiva trabalhada é a de orientação sexual, a palavra assexual segue a mesma formação de outras palavras que nomeiam outras orientações sexuais, como heterossexual, homossexual e bissexual.

A senhora já defendeu a tese? Quando (foi ou será)?. Me fale mais de seu interesse no tema?
A tese será defendida em 2014. Meu interesse no tema surgiu a partir da constatação de que, apesar de haver comunidades de assexuais no Brasil, não havia pesquisas acadêmicas sobre este tema no país. Nos Estados Unidos, e em outros países, os assexuais estão se organizando em movimentos para a visibilidade da assexualidade nos meios de comunicação. No Brasil, as interações entre os assexuais restringem-se às poucas comunidades existentes no Orkut e na Comunidade Assexual A2 (www.assexualidade.com.br). Embora a mídia brasileira esteja publicando matérias sobre a assexualidade pelo menos desde 2003, a academia infelizmente não seguiu o mesmo caminho.

Sua formação é sociologia, correto? Fale um pouco de seus estudos.
Sou pedagoga, com mestrado em sociologia da educação. Sou integrante da organização não governamental ECOS – COMUNICAÇÃO EM SEXUALIDADE, onde desenvolvo pesquisa sobre diversidade sexual, relações de gênero e educação em sexualidade. Meu mestrado - defendido na Faculdade de Educação da USP em 2007 -, foi sobre gravidez e maternidade na adolescência. No doutorado continuo a pesquisar a sexualidade, só que desta vez com o foco direcionado à diversidade sexual.

Li no seu blog, sobre sua pesquisa sobre assexualidade. Como funciona? Quem pode participar?
Podem participar pessoas que se autoidentifiquem como assexuais, preferencialmente a partir de 18 anos de idade. A pesquisa é exploratória, de caráter qualitativo e busca compreender o processo de autoidentificação como assexual.

Sua palestra tem como tema “o desejo sexual é universal”? Então, pergunto: ele é?
Essa é uma das provocações que costumo colocar para explicar o que é a assexualidade. Sempre fomos levados a acreditar que sim. O desejo sexual foi construído historicamente (sobretudo pelas ciências médicas) como universal, ou seja, todas as pessoas, independente da época, da cultura, do meio social devem sentir desejo sexual (de preferência desejo heterossexual), pois, supostamente, corpo biológico é o lócus da sexualidade. Mas sabemos que a sexualidade não está somente no corpo biológico. Ela se constrói no interior das relações sociais, desenvolvidas em determinadas culturas, em determinadas épocas e contextos diversos. Hoje temos um grupo emergente de pessoas – os assexuais – que contestam este postulado histórico. Essas pessoas têm nos mostrado, nos últimos 10 anos, que existe muita coisa que ainda não sabemos sobre a sexualidade humana. Inclusive que a falta de interesse pelo sexo faz parte da construção social da sexualidade. A falta de interesse não seria necessariamente um transtorno, mas uma variação da sexualidade humana. Mais uma cor no arco-íris da diversidade sexual.

Como definir o que é ser assexual?
A assexualidade é uma interpretação da falta de desejo (antes sempre considerada um distúrbio). Ainda não existe uma definição totalmente acabada da assexualidade. Essa definição ainda está sendo construída, tanto pelos assexuais como pelos pesquisadores estudiosos da assexualidade. Em linhas gerais, ser assexual significa não ter nenhum – ou pouquíssimo – interesse pela atividade sexual. Essa falta de interesse não é uma escolha do sujeito assexual e, em geral, não lhe traz infelicidade, angústia ou desconforto. Assim como a heterossexualidade, homossexualidade ou bissexualidade, a assexualidade não é uma escolha. A falta de interesse pelo sexo não significa que a pessoa não tenha interesse por relacionamentos amorosos. Sexo e amor são coisas separadas para os assexuais. Eles acreditam ser possível manter relacionamentos amorosos que não envolvam atividade sexual. Mas também existem assexuais que não têm interesse nem mesmo em relacionamentos amorosos. A assexualidade não diz respeito ao comportamento sexual. Uma pessoa assexual pode fazer sexo, apesar da falta de interesse, não há nada de errado com seu corpo. Muitos assexuais mantêm relacionamentos amorosos com pessoas não assexuais, e fazem sexo para dar prazer a seus parceiros, apesar da falta de interesse.

Na sua opinião, a assexualidade pode ser reconhecida como uma quarta orientação sexual (além de heteros, homos e bissexuais)?
Para os assexuais membros das comunidades assexuais norte-americanas, a assexualidade é uma orientação sexual. Porém, entre os poucos pesquisadores da assexualidade no mundo, isso ainda não é consenso. A assexualidade têm muitas semelhanças com outras orientações sexuais. Como outras orientações sexuais, a assexualidade (falta de interesse por sexo) é patologizada pela medicina, por exemplo, pois vivemos numa sociedade na qual o desejo sexual é compulsório. Outra semelhança é que os assexuais, em determinado momento da vida, sentem-se diferentes de seus colegas da mesma idade. Na adolescência, podem perceber que seus colegas passam a se interessar por sexo e relacionamentos amorosos, e não compreendem por que não sentem o mesmo. Os assexuais não se identificam com a forma com que a sexualidade está colocada na sociedade. Esse processo de desindentificação pode levar a pessoa assexual ao isolamento e ao sentimento de inadequação social. Por sua falta de interesse pelo sexo, alguns assexuais relatam ter sofrido discriminação, até mesmo homofobia, pois seus colegas - e até as famílias -,  pensam que eles são homossexuais enrustidos. Como não existem referências de identificação na sociedade (ao contrário do que ocorre com os homossexuais), - e também pela falta de informações sobre a assexualidade – jovens assexuais não têm a quem recorrer para esclarecer suas dúvidas. É difícil entender a assexualidade num contexto que patologiza a falta de interesse por sexo. Outra coisa que deve ficar clara é que a orientação assexual implica também uma orientação afetiva, que pode ser homo, hetero ou bi, ou nenhuma. Ou seja, os assexuais com interesse amoroso podem sentir atração amorosa pelo mesmo sexo, por sexo diferente ou por qualquer dos sexos. Portanto, uma pessoa pode ser ao mesmo tempo assexual e gay; assexual e lésbica; assexual e bi; ou assexual sem nenhuma orientação afetivo-amorosa (sem interesse por relacionamentos amorosos).

Diversas patologias são atribuídas às pessoas que não praticam o sexo, de acordo com o Manual Estatístico e Diagnóstico de Distúrbios Mentais (DSM) - publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. Na lista aparecem transtornos sexuais sofridos pelas mulheres, como: transtorno do desejo sexual hipoativo, transtorno da aversão sexual, transtorno de excitação, anorgasmia, dispareunia e vaginismo. Não raramente, a sociedade atual equipara a necessidade sexual a outras necessidades biológicas como o alimento e o sono. Pensando assim, como diferenciar os diagnósticos?
Quando falamos de distúrbios sexuais, estamos considerando que existe um padrão normal e desejável de sexualidade (heterossexual, cisgênera e reprodutiva). Portanto, qualquer comportamento ou identidade sexual que se afaste disso, é considerado um distúrbio que requer diagnóstico, tratamento e cura.  Basta comparar as sucessivas edições do DSM para ver a proliferação de distúrbios sexuais que são acrescentados a cada nova edição. Com isso, a poderosa indústria de terapias, medicamentos e tratamentos cresce a partir do desejo das pessoas em atingirem determinados padrões sexuais considerados normais. Existem livros escritos sobre como a indústria farmacêutica norte-americana lucra com as chamadas disfunções sexuais femininas. Portanto, existem interesses econômicos e políticos por trás desses diagnósticos. Com isso, não estou afirmando que distúrbios não existam. Se uma pessoa que sempre teve determinado padrão de desejo, de repente, vê esse padrão diminuir ou desaparecer, se isso lhe traz infelicidade, certamente deve buscar ajuda médica ou psicológica para descobrir a origem do problema.
A assexualidade não é um diagnóstico. É uma interpretação da falta de interesse pelo sexo. Se existem pessoas que nunca tiveram interesse pelo sexo e são felizes dessa forma, não faz sentido buscar ajuda. A sociedade é que deve absorver esse conceito e reconhecer essas pessoas. Os assexuais são a prova viva de que a necessidade sexual não pode ser equiparada a outras necessidades biológicas, como alimento ou água. Isso é o que a mídia propaga; isso é o que as ciências biológicas propagam, isso é o que a indústria do consumo propaga. A sexualidade não está somente no corpo biológico, como eu já disse. Se a pessoa acredita que o sexo é fundamental, ela vai construir sua vida em torno dessa crença, e pode se sentir infeliz quando estiver impossibilitada de fazer sexo, ou de ter um relacionamento amoroso. Se a pessoa acredita que para ela o sexo não é importante – ou totalmente dispensável – ela vai viver sua vida bem e ajustada em torno dessa crença, ou sentir-se infeliz se for obrigada a fazer sexo. O sofrimento pode vir da pressão social para que ela siga o comportamento da maioria, não da falta de interesse por sexo. Embora vez por outra apareçam estudos apontando os benefícios do sexo para a saúde física e psicológica, eu não conheço nenhum estudo que consiga provar sem sombra de dúvida que a atividade sexual isoladamente está promovendo aqueles benefícios apurados. Ou que somente a atividade sexual promova aqueles benefícios; por exemplo, alimentação equilibrada, exercícios frequentes, baixo nível de stress, convívio com amigos também trazem benefícios para o corpo e para a mente da maioria das pessoas. Não há dúvida que a atividade sexual traz benefícios, mas outras atividades prazerosas também trazem. As fontes de prazer são diferentes para pessoas diferentes.

Como entender alguém que simplesmente diz: não gosto de sexo e não tenho nenhuma doença? É verdade 7% das mulheres e 2,5% dos homens garantem viver perfeitamente sem sexo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde?
Por que uma pessoa que diz que não gosta de sexo e é feliz assim teria que fazer exames médicos e provar para os outros que é saudável? Por que quando alguém diz “sou heterossexual e adoro sexo”, ninguém pede a ele ou ela que faça exames para saber se é normal? Infelizmente trabalhamos com padrões de normalidade que não traduzem as experiências reais que as pessoas vivem. Temos que desconstruir a ideia de que o desejo sexual é universal, que é somente biológico, que independe da cultura, da história, das relações sociais, pois tudo isso constitui as sexualidades Só é possível entender a assexualidade - e as demais sexualidades - a partir dessa desconstrução.
Se 7% das mulheres e 2,5% dos homens dizem viver bem sem sexo, esses números só revelam que essas pessoas são (ou estão temporariamente) celibatárias, não que são assexuais. Celibato é uma escolha pela abstinência sexual; a assexualidade não é uma escolha. A assexualidade vai muito além do comportamento sexual. Nem todo mundo que não faz sexo é assexual; e muitos assexuais fazem sexo. Fazemos sexo por diversos motivos além do desejo sexual.

Na sua opinião, é maior o preconceito com quem não pratica sexo do que com aqueles que o fazem excesso?
Sem dúvida. Basta verificar a lista de distúrbios sexuais do DSM para constatar que a maioria diz respeito a falta (falta de desejo, falta de orgasmo, falta de prazer, falta de excitação, falta de ereção, etc.) Para o excesso ser considerado uma patologia, ele deve ser extremo. Compreende-se facilmente o excesso de desejo, mas não se compreende a falta dele. Socialmente é a mesma coisa, principalmente para os homens. Gostar de sexo e estar buscando sexo constantemente faz parte da construção da masculinidade mais valorizada. É preciso muita coragem para um homem se assumir como assexual numa sociedade tão machista como a nossa.

Vivemos em uma sociedade que, não raramente, banaliza o sexo. Talvez por este motivo, e também por falta de didática dos pais, muitos adolescentes não estão preparados para falar sobre sexo - ou se manifestarem sobre a questão. Então, como os pais podem reconhecer a assexualidade dos filhos e ajudá-los?
Não há como reconhecer a assexualidade, a não ser que a pessoa se autoidentifique dessa forma e revele a seu círculo social. É possível que um/a jovem tenha outras prioridades, como os estudos, a inserção no mercado de trabalho, lazer com amigos, e deixe os relacionamentos amorosos e sexuais para mais tarde na vida. Em minha opinião, os pais devem manter-se abertos e disponíveis para conversar com os filhos sobre todos os assuntos, inclusive sobre sexo. Acredito que uma lição importante que os pais devem passar a seus filhos é que, ao contrário do que propaga a novela das 8, a propaganda de refrigerante, o que fazem os amigos, o que se ouve na mídia, a atividade sexual não tem que ser necessariamente prioridade na vida do/a jovem. Existem muitas outras coisas importantes para aprender com os relacionamentos. Sexo não é tudo na vida.

Alguém que antes gostava, e depois de uma experiência traumática, deixou de gostar de sexo, pode ser considerado um assexuado?
Uma pessoa nessas condições deve procurar ajuda psicológica para superar seu trauma. A falta de desejo, nesse caso, pode ser consequência da experiência traumática.

Em geral, aprendemos que o sexo faz parte de nossa condição humana e não à toa o ato sexual está relacionado a reprodução - e a preservação da espécie. Além disso, também os animais fazem sexo. Sendo assim, a falta de libido não deve ser investigada como uma "falha" do corpo?
Não necessariamente, os assexuais estão aí para provar isso. Nós não somos exatamente como os animais irracionais; nós temos inteligência, autocontrole, poder de planejar, de construir, de escolher, de decidir. Como disse anteriormente, a sexualidade não ocorre somente no corpo biológico. É preciso desconstruir a ideia de que todos os seres humanos de todas as épocas e de todas as culturas sejam iguais. Não somos todos iguais. O principal problema da assexualidade é que sua principal característica – a falta de interesse por sexo –, pode ser também interpretada como transtorno. Isso diferencia a assexualidade de outras orientações sexuais.

Quais, na sua opinião, são os obstáculos de quem levanta essa bandeira da abstinência e dos que lutam para o reconhecimento da assexualidade?

·        Viver numa sociedade que considera que o desejo sexual é universal e que a atividade sexual é indispensável para a saúde e felicidade.
·         Viver numa sociedade que apregoe que não fazer sexo – ou não desejar o sexo – não é normal
·         Viver numa sociedade que ensina que não é possível ter relacionamentos amorosos prazerosos que não envolvam a atividade sexual.
·         Viver numa sociedade que apregoe que o sexo é necessariamente consequência do amor.
·         Viver numa sociedade que considera que não é possível ser feliz sozinho.
·         Viver numa sociedade que priorize a atividade sexual, quando existem tantos outros aspectos importantes na vida.
·         Viver numa sociedade que não acredite na diversidade humana
·        Viver numa sociedade que não respeita o direito individual de cada um de tomar decisões em relação ao uso de seu corpo.

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