domingo, 14 de julho de 2013

Assexualidade no Programa "Gabi Quase Proibida"

Queridos/as leitores,

Minha entrevista sobre assexualidade com a jornalista Marília Gabriela no programa "Gabi Quase Proibida", exibida em 17/07/13 no SBT,  já está disponível no site do SBT:     http://www.sbt.com.br/sbtvideos/media/ee996df788a53d68b8a665303b06977f/Elisabete-Oliveira-fala-sobre-os-assexuais-Parte-1.html 


terça-feira, 2 de julho de 2013

Um olhar sobre a diferença entre amizade e namoro e suas implicações para os assexuais


Amigo é uma alma que habita dois corpos.

Aristóteles

A resenha de hoje não é de um artigo, mas de um pôster, trabalho acadêmico apresentado em 2009 num evento pelo doutorando C. J. Chasin, do Departamento de Psicologia da Universidade de Windsor, no Canadá, o qual tem desenvolvido pesquisa sobre a assexualidade. Chasin faz, inicialmente, um resumo das principais conclusões que a ciência chegou até agora sobre a assexualidade para situar o tema de seu pôster.

Em primeiro lugar, estima-se que incidência da assexualidade entre os humanos seja de 1% a 4% - conforme referências apontadas por Chasin -, embora ainda não haja estatísticas específicas. Outra conclusão de alguns pesquisadores, segundo o autor, é que a assexualidade diferencia-se do Desejo Sexual Hipoativo, descrito como transtorno sexual nos manuais de psicologia. E uma terceira constatação – fundamental para a argumentação do pesquisador em seu trabalho -, é que a comunidade assexual faz uma distinção muito clara entre atividade sexual e amor romântico.

Esta distinção é crucial para as pessoas assexuais que desejam relacionamentos amorosos – os chamados românticos -, pois para estes indivíduos, o sexo não é definidor do amor. Para aqueles e aquelas que não desejam relacionar-se romanticamente – os chamados arromânticos -, os estudos apontam que os amigos e a família constituem o centro de sua vida social, a qual é organizada em função desses relacionamentos. Essa é uma distinção importante entre arromânticos e românticos, considerando que estes últimos – assim como as pessoas não assexuais – costumam configurar sua vida social priorizando seus relacionamentos amorosos.

Com o objetivo de conhecer as diferenças entre amizade e amor romântico, Chasin entrevistou 12 duplas de amigos (alguns do mesmo sexo; outros, de sexos diferentes, inclusive de diferentes orientações sexuais) de 18 a 25 anos e propôs às duplas uma discussão sobre este tema. O resultado destes diálogos mediados e sua análise fazem parte do pôster de Chasin. A pergunta que orientou o diálogo foi a seguinte: De que modo as pessoas fazem a distinção entre amizade e namoro? Como exemplo, segue um resumo da transcrição do diálogo entre duas jovens entrevistadas pelo pesquisador:

Pesquisador:                           Qual é a principal diferença entre amizade e namoro?

Entrevistada 1:                        Sexo?

Entrevistada 2:                        É, sexo é uma diferença importante. Mas eu acho que a gente passa mais tempo com um namorado do que com um amigo. O relacionamento é diferente. As cobranças no relacionamento são por motivos diferentes no namoro e na amizade.

Pesquisador:                           O que você quer dizer com isso?

Entrevistada 2:                        Bom, você não pode ficar bravo com um amigo porque ele não telefonou para você. É diferente quando um namorado não telefona.

Entrevistada 1:                        É, seria muito estranho brigar com um amigo só porque ele não telefonou.

Entrevistada 2:                        É, se você ficar chateada porque seu amigo não telefonou, ele vai dizer: “Para com isso, eu não sou seu namorado.”

Entrevistada 1:                        Eu espero estar em primeiro lugar na vida de um namorado.

Entrevistada 2:                       Eu quero ser a pessoa mais importante para ele.

Questionadas sobre a diferença entre amizade e namoro, as jovens citam o sexo/sexualidade como a diferença inicial entre os dois tipos de relacionamento. Mas, em seguida, concluem que só sexo não é o suficiente para estabelecer a diferença. Uma delas diz que o namoro deve ter prioridade explícita sobre a amizade. Isso implica a existência de diferentes prescrições para o comportamento de amigos e namorados e sanções para a violação das regras. Por exemplo, o relacionamento amoroso abre prerrogativas para expectativas comportamentais que não valem para as relações de amizade. Caso as regras estabelecidas não sejam cumpridas, é possível “ficar brava” com o namorado, mas não com o amigo pelo mesmo motivo. Isto demonstra não somente uma diferenciação, mas uma hierarquização dos relacionamentos, sendo que o namoro ocupa lugar privilegiado sobre a amizade.

Ao trazer as constatações da entrevista para pensar a assexualidade, Chasin pondera que, sendo a atividade sexual uma das principais diferenças entre amizade e romance para as pessoas não assexuais, os indivíduos assexuais se veem desafiados a buscar outras distinções e gerar novos discursos. Supondo que numa relação entre assexuais não haja atividade sexual, então, como se diferencia a amizade do relacionamento romântico? As comunidades virtuais de assexuais têm incentivado seus membros a discutir as diversas possibilidades de relacionamentos além daquelas já conhecidas.

Essa discussão inclui a reafirmação do valor das amizades como relacionamentos importantes, que não devem ser desvalorizados quando comparados a relacionamentos amorosos. Por causa da valorização da atividade sexual nos relacionamentos amorosos, é possível que as parcerias amorosas assexuais não sejam tratadas socialmente com a mesma seriedade que as parcerias “sexuais.” Sendo a amizade um relacionamento importantíssimo – principalmente para os assexuais arromânticos -, este relacionamento pode não ser compreendido socialmente no contexto desta importância, pois costuma-se pensar a amizade como um relacionamento de menor  significado.

Chasin conclui afirmando que o debate sobre a assexualidade deverá incluir a reafirmação da importância da amizade para as pessoas autoidentificadas como assexuais. Com a emergência do conceito de assexualidade – bem como a consequente mudança de paradigma nos modos de se compreender a sexualidade – novas concepções de relacionamentos deverão ser pensados à luz desses novos conceitos.

Pôster Comentado:


Chasin, C. J. A discursive look at friend/partner distinction: implications for asexual people. University of Windsor, Department of Psychology, 2009