terça-feira, 15 de abril de 2014

Assexualidade e masturbação: reflexões de Anthony Bogaert

Em 2012, foi lançado na América do Norte o primeiro livro totalmente dedicado ao estudo da assexualidade. O livro “Understanding Asexuality” (Compreendendo a assexualidade) foi escrito pelo psicólogo social Anthony Bogaert, professor da Brock University, no Canadá. O Dr. Bogaert é um dos pioneiros no estudo da assexualidade, tendo publicado, em 2004, o artigo que inaugurou as pesquisas sobre este tema após a fundação da AVEN – Asexual Visibility and Education Network. O livro, dividido em 14 capítulos, traz temas como masturbação, sexo, gênero, identidade, transtorno, entre outros.
No Capítulo 5 do livro, o Dr. Bogaert traz importantes reflexões sobre a prática da masturbação entre as pessoas autoidentificadas como assexuais - das quais apresento aqui um resumo não analítico. É importante lembrar que Bogaert é psicólogo, portanto, sua visão do fenômeno é focada dentro das fronteiras deste campo do conhecimento – que apesar de importante, é somente uma das perspectivas possíveis. O texto mostra que o psicólogo levanta perguntas, cria hipóteses, ensaia algumas conclusões, mas não elabora respostas definitivas às questões levantadas. Embora a masturbação assexual não seja o foco da minha pesquisa, considerei importante trazer as reflexões de Bogaert para os leitores e leitoras do Blog Assexualidades, por ser um dos pouquíssimos materiais científicos a abordar este tema.
Bogaert abre o Capítulo 5 anunciando que proporá uma série de questões “idiotas” sobre a masturbação para começar o debate, pois pretende tratar a masturbação como um fenômeno da sexualidade, buscando distinguir suas especificidades em relação à assexualidade. A primeira pergunta é a seguinte: Qual a finalidade da masturbação? O pesquisador justifica que esta pergunta é boba, pois, para a maioria das pessoas, não há finalidade na masturbação, a não ser o puro prazer. A prática é prazerosa e é por isso que as pessoas fazem.  Porém, a partir da perspectiva do evolucionismo, esta é uma pergunta válida, pois a existência de qualquer variação sexual que não esteja associada à reprodução (por exemplo, homossexualidade, assexualidade e masturbação) confunde a ciência. Como estas práticas podem competir com o intercurso heterossexual, o qual tem sido responsável pela propagação de genes, por meio da reprodução humana? Portanto, para Bogaert, não há explicação evolucionária para a masturbação.
Nesse sentido, a resposta “porque traz prazer”, faz surgir a necessidade de outra pergunta: Por que a masturbação dá prazer? No levantamento feito pelo biólogo Alfred Kinsey nas décadas de 1940 e 1950, apurou-se que quase 100% dos homens e 60% das mulheres norte-americanos praticavam a masturbação. A existência de um/a parceiro/a sexual pode afetar a frequência da masturbação, mas sabe-se que a simples existência de parceiro/a não faz cessar esta prática. Bogaert revê seu posicionamento anterior, afirmando que, do ponto de vista da evolução, é possível que a masturbação seja uma prática que tem como objetivo o treinamento, ou ensaio para a prática sexual futura com parceiro/a. A masturbação pode trazer também benefícios para a saúde, tanto de homens como de mulheres, este pode ser mais um dos motivos.
A próxima pergunta de Bogaert é: As pessoas assexuais se masturbam? Um estudo recente da psicóloga Lori Brotto e equipe revela que 80% dos homens assexuais entrevistados e 70% das mulheres assexuais afirmam que praticam a masturbação. Comparando esses números com os percentuais da prática da masturbação entre pessoas não assexuais, chega-se à conclusão de que a proporção dos/as assexuais que se masturbam é altíssima, considerando que são pessoas que afirmam não ter interesse pelo sexo! Esses números não podem ser generalizados para toda a população assexual, pois todas pessoas entrevistadas na pesquisa de Brotto fazem parte da Aven – Asexuality and Education Network, portanto, um grupo muito específico de assexuais, com características próprias. Mas o ponto mais importante deste levantamento é a constatação de que uma parcela significativa dos assexuais pratica a masturbação. Isso reforça a ideia de que uma diferença importante entre os assexuais é que alguns se masturbam e outros não se masturbam.
A pergunta seguinte proposta por Bogaert é: Por que algumas pessoas assexuais se masturbam? Considerando que a assexualidade está associada a níveis baixos – ou inexistentes – de atividade sexual, cabe perguntar, portanto, o que leva alguns assexuais à prática da masturbação. Das principais justificativas para a masturbação (prazer, treinamento/ensaio e saúde), qual delas é a mais provável para explicar a prática da masturbação pelos/as assexuais? Para Bogaert, a função de treinamento/ensaio não parece ser importante para responder a esta pergunta, considerando que pessoas assexuais não têm inclinação para a prática sexual com parceiro/a. A saúde, sim, parece ser uma boa explicação, pois a masturbação alivia a tensão, e segundo alguns homens, serve para “limpar o encanamento”. Portanto, eis aí uma possível explicação fisiológica.
Neste ponto, Bogaert faz questão de lembrar um dos temas discutidos no Capítulo 2 do livro: pode existir excitação sexual (como ereção, lubrificação vaginal, orgasmo) sem que necessariamente haja atração sexual, ou desejo por outras pessoas. Portanto, não há conflito entre a masturbação e as definições mais propagadas de assexualidade. As pesquisas sugerem que a sensação experimentada por assexuais durante a masturbação pode não ser particularmente “prazerosa”, pelo menos não no contexto sexual que pessoas não assexuais experimentam. Bogaert afirma que o prazer da masturbação para os assexuais advém do alívio físico que ela proporciona, não tendo necessariamente ligação com o prazer sexual experimentado por pessoas não assexuais. Como exemplo, Bogaert conta que, conversando com um homem gay, este lhe disse que sentia mais prazer no intercurso sexual com mulheres, do que com homens. Segundo este homem gay, a estimulação proporcionada pela arquitetura específica da vagina - inclusive pela lubrificação da mesma -, torna a penetração vaginal mais prazerosa para ele do que a penetração anal, apesar de ele ser gay. Isso leva a crer que o prazer físico subjetivo e a sensação proveniente da excitação podem não estar associados necessariamente ao objeto da atração sexual.
A próxima pergunta de Bogaert é: No que pensam as pessoas assexuais quando se masturbam? Ou, seja, qual a inspiração para a masturbação assexual? Aqui, Bogaert refere-se à existência ou não de fantasias sexuais durante o ato da masturbação por pessoas assexuais. Pessoas não assexuais normalmente se masturbam fantasiando uma pessoa, uma situação, ou olhando uma fotografia, lendo literatura erótica ou assistindo pornografia. Isso não parece ocorrer com todas as pessoas assexuais que se masturbam. Bogaert fez estas perguntas a um homem assexual, o qual, depois de pensar muito, respondeu que não pensa em nada específico quando se masturba. Esta resposta fez sentido para Bogaert, considerando que o desejo (ou libido) das pessoas assexuais não é direcionado a outras pessoas, portanto, é coerente que não haja fantasias ligadas ao ato sexual com parceiros/as.
Para Bogaert, esta masturbação não direcionada reforça a ideia de que grande parte dos assexuais não têm fantasias sexuais, pelo menos, não da mesma maneira que pessoas não assexuais. Bogaert diz que a pesquisa de Brotto sugere que alguns assexuais têm fantasias, mas não está claro neste estudo se as fantasias ocorrem ou não durante a masturbação, se tratam-se de fantasias românticas, e qual a função das fantasias. Esta masturbação não direcionada também reforça a ideia de que para as pessoas assexuais a masturbação não tem a função de treinamento/ensaio para outras práticas sexuais com parceiro/a.
A última pergunta proposta por Bogaert é: E se uma pequena porcentagem de assexuais têm fantasias durante a masturbação?  O que isto significaria? Bogaert acredita que as fantasias sexuais são mais importantes do que o próprio comportamento sexual como componente da sexualidade, pois revelam mais sobre desejo e atração do que o próprio comportamento, que pode ser motivado por fatores sociais, por exemplo. As fantasias são individuais, livres, não sujeitas a censura (a não ser a censura do próprio indivíduo), constituindo-se como puro reflexo da verdadeira atração, não há compromisso, pode-se fantasiar sobre qualquer coisa, pessoa ou situação.
Quando Bogaert perguntou àquele mesmo homem assexual se ele tinha fantasias durante a masturbação, o indivíduo não entendeu a pergunta e teve que pensar muito antes de responder que não pensava em nada especificamente.  Este jovem é considerado assexual na perspectiva de Bogaert, porque apesar de praticar a masturbação, este ato não é direcionado a nada nem a ninguém. No entanto, Bogaert diz que conhece assexuais que têm fantasias consistentes e selecionam estímulos específicos para a prática da masturbação. Parece ocorrer algum nível de fantasia. Bogaert, como todo bom psicólogo, pergunta-se também se os indivíduos assexuais que têm fantasias não são portadores de algum tipo de parafilia, algum tipo de atração difusa, pouco comum e ainda não estudada.
Em suas conclusões, Bogaert enfatiza que embora pessoas assexuais possam ter fantasias, estas parecem ser desassociadas da atividade sexual. Isso significa que apesar das fantasias, as pessoas assexuais não se colocam no cenário criado por sua própria fantasia. Por exemplo, não se imaginam como participantes da cena de pornografia que estão assistindo, ou da leitura erótica que estão fazendo, a não ser como meros espectadores ou observadores. Não sentem atração por nada nem por ninguém, mas seus corpos - ou alguns aspectos de suas mentes relacionadas à excitação sexual -, podem ainda precisar de estímulo sexual para que eles se masturbem. Esta desconexão entre identidade, masturbação e fantasias sexuais é intrigante para a ciência e precisa ser estudada.

Referência Bibliográfica

BOGAERT, Anthony. “To masturbate or not masturbate”. In: Understanding Asexuality, Chapter 5, pg. 55-65. Lanham: Rowman & Littlefield Publishers, 2012

8 comentários:

  1. Nossa.... Incrível, incrível... Eu nunca imaginei que o sexuados pensavam dessa maneira. Foi algo mágico, pois da mesma forma que acho que é complicado explicar a assexualidade para os outros, é muito difícil entender o que não se sente. É difícil entender pessoas sexuadas, o que as move e tudo mais. Essa pesquisa foi fantástica para entender melhor como as coisas funcionam do outro lado. Pela maioria das pessoas não serem assexuais, elas não precisam explicar com tantos detalhes como funcionam as coisas nas mentes delas, então pesquisas assim são muito importantes. Eu considero muito importante, não tanto a mérito de auto-entendimento, também, mas principalmente para entender os outros.
    Obrigada por disponibilizar esses dados, Elisabete ^^

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  2. MUITO BOA A MATERIA.ME IDENTIFIQUEI MUITO,,,,,

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